A China está tentando transformar um material que durante décadas apareceu principalmente como subproduto da mineração em uma possível peça de sua estratégia energética: o tório.
Em 2025, ganhou repercussão internacional uma avaliação do potencial de tório existente em Bayan Obo, na Mongólia Interior, gigantesco complexo mineral conhecido principalmente pelas terras raras. A estimativa mais divulgada aponta que o local poderia conter material suficiente para recuperar até 1 milhão de toneladas de tório. Algumas projeções chegaram a traduzir esse volume como energia suficiente para abastecer a China por aproximadamente 60 mil anos.
O número impressiona, mas precisa ser interpretado corretamente.
A China não descobriu agora uma nova mina com 1 milhão de toneladas de tório prontas para serem retiradas e usadas em usinas nucleares. Bayan Obo é conhecida desde 1927, inicialmente como depósito de ferro, e posteriormente passou a ser reconhecida como um gigantesco depósito polimetálico de ferro, terras raras e nióbio. O que mudou recentemente foi a atenção dada ao enorme potencial de tório existente no minério e nos materiais associados à mineração.
E existe uma segunda parte dessa história que torna o assunto ainda mais relevante: a China não está apenas avaliando seus recursos minerais.
Ela já opera um reator experimental de sal fundido com tório e, em 2025, pesquisadores chineses anunciaram a primeira conversão experimental de tório em combustível baseado em urânio dentro desse sistema. Em fevereiro de 2026, a Academia Chinesa de Ciências informou que o reator experimental continuava em operação estável.
É justamente a combinação entre recurso mineral + processamento + tecnologia nuclear que transforma Bayan Obo em algo muito maior do que uma notícia sobre mineração.
O que aconteceu com o tório da China?
A história que viralizou como uma “descoberta da maior mina de tório do mundo” é um pouco diferente quando observamos as fontes técnicas.
Um levantamento nacional chinês, encerrado em 2020 e posteriormente divulgado, ampliou a percepção sobre a quantidade de tório existente no país. Segundo informações publicadas em 2025, o complexo de Bayan Obo poderia, em um cenário de aproveitamento amplo, fornecer cerca de 1 milhão de toneladas de tório.
A estimativa de que isso representaria aproximadamente 60 mil anos de energia para a China apareceu a partir de cálculos teóricos sobre o potencial energético do elemento.
Mas existem três conceitos que não devem ser confundidos:
recurso geológico ≠ reserva economicamente recuperável ≠ combustível nuclear pronto.
Um elemento estar presente em grandes quantidades dentro de um depósito mineral não significa que todo esse material possa ser extraído economicamente.
E mesmo depois da extração, o tório precisa passar por uma cadeia tecnológica complexa antes de participar da produção de energia.
Por isso, o número de 60 mil anos deve ser entendido como uma projeção de potencial, não como uma previsão de que a China já possui combustível nuclear garantido para os próximos 60 mil anos.
Afinal, onde fica Bayan Obo?
Bayan Obo está localizada na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China.
O depósito foi descoberto como fonte de ferro em 1927 e depois reconhecido como uma formação extraordinariamente rica em diferentes elementos. Hoje ele é considerado o maior depósito conhecido de elementos de terras raras do planeta e também possui nióbio, ferro e outros minerais de interesse econômico.
Essa característica é importante porque o tório não aparece necessariamente como uma enorme massa isolada esperando para ser minerada.
Ele pode ocorrer associado aos minerais de terras raras.
Um estudo científico publicado em 2025 analisou especificamente a ocorrência e a distribuição do tório no gigantesco depósito REE-Nb-Fe de Bayan Obo e encontrou uma distribuição bastante heterogênea do elemento dentro do sistema mineral.
Isso ajuda a explicar por que o tório pode surgir simultaneamente como:
- recurso potencial;
- subproduto da mineração;
- desafio radiológico;
- possível matéria-prima energética.
O que terras raras têm a ver com tório?
Muito.
Alguns dos depósitos mais importantes de terras raras do mundo também contêm tório.
A Agência Internacional de Energia Atômica explica que recursos significativos de tório frequentemente aparecem como componentes menores de depósitos de elementos de terras raras e também em depósitos de minerais pesados. A monazita é apontada pela agência como um dos principais minerais naturais associados ao tório.
Isso cria uma conexão direta com algo que já vimos no TecMaker.
No artigo O que é monazita? Terras raras, tório e radioatividade, mostramos que a monazita pode concentrar elementos de terras raras e tório.
Em outro contexto geológico, essa mesma relação aparece em Bayan Obo.
E é aqui que nosso cluster começa a ganhar uma dimensão tecnológica maior:
monazita → terras raras → tório → energia nuclear avançada.
O material que pode ser um problema durante o processamento de certos minérios também pode se transformar em recurso estratégico se existir tecnologia capaz de aproveitá-lo.
O tório de Bayan Obo está nos rejeitos da mineração?
Parte do interesse está justamente aí.
A reportagem que revelou os principais números do levantamento chinês destaca que até resíduos produzidos pela mineração existente em Bayan Obo podem conter quantidades relevantes de tório. O relatório citado pela publicação avaliou que apenas uma parcela dos materiais acumulados durante a atividade mineradora já representaria um potencial energético extremamente grande em um cenário futuro de utilização nuclear.
Esse detalhe muda a lógica tradicional.
Normalmente pensamos em mineração assim:
extrair minério → retirar elemento valioso → descartar o restante.
Mas quando novas tecnologias criam demanda para outros elementos presentes naquele minério, aquilo que antes era tratado apenas como resíduo pode se transformar em uma nova fonte de matéria-prima.
Isso não significa que todo rejeito possa simplesmente ser reaproveitado.
É necessário conhecer:
- concentração do tório;
- composição química;
- custo da separação;
- segurança radiológica;
- impactos ambientais;
- viabilidade econômica;
- tecnologia de processamento.
Mas o princípio é importante: uma cadeia mineral pode ganhar novo valor quando a tecnologia muda.
Tório é realmente um combustível nuclear?
Aqui aparece uma diferença fundamental em relação ao urânio usado normalmente em reatores.
O tório-232, principal isótopo natural do elemento, não é um combustível físsil pronto para sustentar sozinho uma reação nuclear em cadeia.
Ele é classificado como um material fértil.
Dentro de um reator adequado, o tório-232 pode absorver um nêutron e iniciar uma sequência de transformações que termina na formação de urânio-233, um material físsil capaz de participar da reação nuclear.
De forma simplificada:
tório-232 → tório-233 → protactínio-233 → urânio-233 → fissão → energia
A AIEA explica que um sistema baseado em tório precisa inicialmente de algum material físsil — como urânio-235, urânio-233 ou plutônio — para fornecer os nêutrons necessários ao processo. Depois, o ciclo pode produzir urânio-233 a partir do tório.
Essa distinção é muito importante.
Uma tonelada de tório encontrada em uma mina não equivale a uma tonelada de combustível nuclear imediatamente utilizável.
Existe uma engenharia nuclear inteira entre uma coisa e outra.
E a China já conseguiu fazer essa conversão?
Sim — e esse é provavelmente o ponto tecnológico mais importante da história.
Em novembro de 2025, a Academia Chinesa de Ciências anunciou que pesquisadores conseguiram realizar experimentalmente a conversão de tório em combustível baseado em urânio dentro de seu Reator de Sal Fundido de Tório, o TMSR. Segundo a instituição, os dados obtidos após o carregamento de tório confirmaram a viabilidade técnica dessa etapa dentro do sistema experimental.
O reator foi desenvolvido pelo Shanghai Institute of Applied Physics (SINAP) em parceria com outras instituições chinesas.
Segundo a Academia Chinesa de Ciências, ele é atualmente o único reator de sal fundido em operação carregado com combustível de tório.
Isso não significa que a China já possua usinas comerciais de tório abastecendo cidades.
O equipamento atual é experimental.
Sua função é validar materiais, química, comportamento do combustível, sistemas de operação e outros componentes necessários antes que instalações muito maiores possam ser consideradas.
O reator chinês já produz muita energia?
Não.
O reator experimental tem potência térmica de aproximadamente 2 MW.
Documentos da AIEA registram que o TMSR-LF1 atingiu operação em potência máxima em 2024. A Academia Chinesa de Ciências informa que essa plataforma continua sendo usada para experimentos e desenvolvimento tecnológico.
Para comparação conceitual, ele não deve ser visto como uma grande central elétrica.
É mais correto imaginá-lo como um laboratório nuclear operacional.
A China pretende dar um salto de escala.
Segundo o SINAP, o objetivo de longo prazo é construir um projeto demonstrativo de 100 MW e alcançar uma aplicação demonstrativa por volta de 2035.
Isso mostra por que é cedo para afirmar que “a China já substituiu urânio por tório”.
Ela ainda está construindo essa tecnologia.
Por que usar sal fundido?
O projeto chinês utiliza uma tecnologia conhecida como Molten Salt Reactor, ou reator de sal fundido.
Em determinados projetos desse tipo, o combustível nuclear pode permanecer dissolvido em sais que circulam no sistema em alta temperatura.
Isso é muito diferente do desenho tradicional de várias usinas nucleares, que utilizam combustível sólido e água sob condições específicas de pressão.
A AIEA aponta características potencialmente interessantes dos reatores de sal fundido, como operação em baixa pressão, altas temperaturas, flexibilidade de combustível e possibilidade de integração com processos industriais.
Mas não devemos transformar essas vantagens teóricas em propaganda.
A mesma AIEA aponta desafios importantes relacionados a:
- corrosão dos materiais;
- pureza e química dos sais;
- efeitos da radiação;
- monitoramento em tempo real;
- produção de sais em grande escala;
- processamento do combustível;
- modelagem e licenciamento;
- integridade dos materiais durante longos períodos de operação.
Esses problemas ajudam a explicar por que, apesar de décadas de pesquisa internacional, reatores de sal fundido ainda não são uma tecnologia comercial dominante.
No próximo artigo deste cluster, vamos explicar detalhadamente como funciona um reator de tório e por que a China escolheu justamente essa tecnologia.
Então a China descobriu a maior mina de tório do mundo?
Essa frase precisa de correção.
Não houve uma descoberta recente de uma mina completamente nova chamada “mina de tório de Bayan Obo”.
Bayan Obo é conhecida há quase um século.
O que aconteceu foi uma reavaliação da dimensão do recurso de tório associado a um complexo mineral já conhecido e explorado principalmente por ferro e terras raras.
Portanto, uma formulação mais correta seria:
Novos levantamentos reforçaram que Bayan Obo pode conter um dos maiores potenciais de tório conhecidos do planeta.
Essa diferença parece pequena, mas é importante jornalisticamente.
“Descobriu uma mina” sugere que geólogos acabaram de encontrar um depósito completamente desconhecido.
Não foi isso que ocorreu.
O número de 60 mil anos é verdadeiro?
Ele existe como estimativa teórica, mas não deve ser tratado como uma garantia energética.
O cálculo divulgado parte da hipótese de que o complexo poderia fornecer aproximadamente 1 milhão de toneladas de tório e considera o enorme potencial energético do ciclo nuclear baseado no elemento.
Porém, para transformar esse potencial em eletricidade real, seria necessário considerar pelo menos:
- quanto tório é tecnicamente recuperável;
- quanto é economicamente viável separar;
- eficiência de processamento;
- perdas ao longo da cadeia;
- quantidade realmente utilizável no ciclo nuclear;
- disponibilidade de reatores;
- eficiência das futuras instalações;
- crescimento da demanda energética chinesa.
Portanto:
“Tório suficiente para 60 mil anos” é uma forma de expressar escala geológica e potencial energético. Não é uma previsão operacional.
Esse é provavelmente o ponto mais importante para não transformar uma descoberta científica em clickbait.
Por que esse recurso pode ser estratégico para a China?
Porque a China reúne três elementos difíceis de encontrar simultaneamente:
matéria-prima, capacidade industrial e pesquisa nuclear avançada.
Bayan Obo já ocupa posição central na indústria de terras raras. Paralelamente, o país desenvolve há anos sua própria cadeia de reatores de sal fundido.
O programa chinês de TMSR começou em 2011 e passou da pesquisa de laboratório para validação de materiais, equipamentos e tecnologias de engenharia. Segundo a Academia Chinesa de Ciências, o objetivo agora é avançar em direção à aplicação demonstrativa e ao desenvolvimento de uma cadeia industrial associada.
É esse conjunto que torna a estratégia interessante.
Possuir muito tório sem dominar a tecnologia para utilizá-lo tem valor limitado.
Construir um reator de tório sem acesso confiável à matéria-prima também cria dependência.
A China está tentando juntar os dois lados.
Tório pode substituir o urânio?
Não no curto prazo.
E talvez a pergunta mais adequada nem seja “substituir”.
A AIEA destaca que o ciclo do tório possui características potencialmente vantajosas, mas também desafios importantes. Como o tório natural não contém quantidade suficiente de material físsil para iniciar sozinho a cadeia, é necessário utilizar inicialmente outro combustível físsil. O ciclo também cria desafios específicos de processamento e manuseio do urânio-233 produzido.
Portanto, o tório pode se tornar uma alternativa ou complemento dentro da energia nuclear avançada.
Não existe atualmente uma migração mundial em massa de usinas convencionais de urânio para tório.
A própria China ainda está na fase experimental.
O que o Brasil tem a ver com essa história?
Mais do que parece.
O Brasil também possui ocorrências de monazita, mineral que pode conter terras raras e tório.
É justamente essa ligação que já exploramos no TecMaker ao analisar as praias naturalmente radioativas de Guarapari e a areia preta brasileira.
Mas existe uma diferença fundamental entre possuir um elemento no território e possuir toda a tecnologia necessária para transformá-lo em energia.
Entre uma areia contendo monazita e uma central nuclear há uma cadeia enorme:
geologia → mineração → concentração → separação química → tório purificado → combustível → reator → geração de energia.
Isso ajuda a entender por que políticas de minerais críticos não podem se limitar à quantidade existente no subsolo.
A questão estratégica é quanto da cadeia tecnológica o país consegue dominar.
É justamente esse debate que aparece também na Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Tório também gera resíduos radioativos?
Sim.
A ideia de que “energia de tório não produz lixo nuclear” é incorreta.
Qualquer processo de fissão nuclear produz produtos radioativos.
O que pode mudar é o perfil dos resíduos, sua composição e as quantidades de determinados actinídeos produzidos.
A AIEA aponta que ciclos baseados em tório podem reduzir a formação de plutônio e de alguns actinídeos menores em determinadas configurações, mas isso não elimina a necessidade de gerenciamento de materiais radioativos e combustível usado.
Também há um desafio específico: o urânio-233 produzido no ciclo pode vir acompanhado de urânio-232, cujos produtos de decaimento emitem radiação gama intensa. Isso exige sistemas de blindagem e manuseio remoto.
Portanto, tório não é “energia nuclear sem radiação”.
É um ciclo nuclear diferente.
Por que o anúncio chinês importa agora?
Porque duas linhas que durante décadas caminharam separadamente começaram a se encontrar.
A primeira é a geologia.
A China percebeu que materiais associados à sua gigantesca indústria de terras raras podem representar também uma fonte potencial de tório.
A segunda é a engenharia nuclear.
O país conseguiu colocar em operação um reator experimental de sal fundido, atingir potência máxima, adicionar tório e obter dados experimentais da conversão para combustível baseado em urânio.
Separadamente, cada fato já seria interessante.
Juntos, eles revelam uma estratégia muito maior:
transformar um elemento associado à mineração de terras raras em uma possível nova opção de combustível nuclear.
O que isso muda na prática?
Ainda não significa que nossas cidades serão abastecidas por tório amanhã.
Também não significa o fim do urânio, do petróleo ou das energias solar e eólica.
Mas significa que uma tecnologia considerada experimental por décadas avançou mais um estágio.
A própria Academia Chinesa de Ciências afirma que os reatores de sal fundido podem trabalhar em conjunto com outras tecnologias energéticas e fornecer calor de alta temperatura para aplicações industriais, armazenamento térmico e produção de hidrogênio.
Se a China conseguir levar seu experimento de 2 MW para um demonstrador de 100 MW e posteriormente para instalações comerciais, o tório deixará gradualmente de ser apenas uma promessa científica para se tornar uma tecnologia energética passível de comparação econômica com outras fontes.
Esse será o verdadeiro teste.
Não a quantidade existente em Bayan Obo.
Mas quanto dessa riqueza mineral pode efetivamente ser convertida em energia segura, competitiva e escalável.
Cinco pontos para entender a notícia sem exageros
- Bayan Obo não foi descoberta recentemente. O depósito é conhecido desde 1927.
- O número de 1 milhão de toneladas é uma estimativa de potencial, não combustível nuclear já disponível.
- Os “60 mil anos” são uma projeção teórica, dependente de muitas premissas.
- A China realmente possui um reator experimental com tório em operação e demonstrou conversão de tório em combustível baseado em urânio.
- A tecnologia ainda não é comercial em grande escala. O objetivo chinês declarado é avançar para um demonstrador de 100 MW até 2035.
Aprofunde o tema em fontes externas
Consulte fontes científicas e institucionais sobre Bayan Obo, tório, terras raras e o desenvolvimento chinês de reatores de sal fundido.
Academia Chinesa de Ciências — reator de tório
A Academia Chinesa de Ciências detalha os avanços do reator experimental de sal fundido e os experimentos envolvendo a utilização de tório no ciclo nuclear.
Consultar a Academia ChinesaAIEA — reatores de sal fundido e ciclo do tório
A Agência Internacional de Energia Atômica reúne informações técnicas sobre reatores de sal fundido, desafios de materiais, corrosão, química dos sais e desenvolvimento dessas tecnologias.
Consultar a AIEAUSGS — histórico geológico de Bayan Obo
O Serviço Geológico dos Estados Unidos apresenta o histórico e as características geológicas de Bayan Obo, um dos depósitos minerais mais importantes do mundo.
Consultar o USGSOre Geology Reviews — distribuição do tório em Bayan Obo
Estudo científico sobre a ocorrência e a distribuição do tório dentro do complexo mineral de Bayan Obo, associado às terras raras, ferro e nióbio.
Acessar o estudoSouth China Morning Post — estimativa de 1 milhão de toneladas
Reportagem que apresentou a estimativa de aproximadamente 1 milhão de toneladas de tório em Bayan Obo e popularizou a projeção teórica de energia para dezenas de milhares de anos.
Ler a reportagemPerguntas frequentes sobre o tório na China
A China descobriu 1 milhão de toneladas de tório?
Uma avaliação divulgada em 2025 estimou que o complexo de Bayan Obo poderia fornecer aproximadamente 1 milhão de toneladas de tório em um cenário de aproveitamento amplo. Isso não deve ser confundido com uma reserva completamente comprovada e economicamente recuperável de combustível nuclear.
Bayan Obo é uma mina nova?
Não. O depósito foi descoberto como fonte de ferro em 1927 e depois reconhecido como um gigantesco sistema mineral de ferro, terras raras, nióbio e outros elementos.
O tório poderia abastecer a China por 60 mil anos?
Essa é uma estimativa teórica divulgada a partir do potencial de aproximadamente 1 milhão de toneladas. O resultado real dependeria de recuperação mineral, processamento, tecnologia dos reatores, eficiência e consumo energético.
A China já possui um reator de tório?
Sim. A China mantém em operação um reator experimental de sal fundido de aproximadamente 2 MW térmicos e anunciou em 2025 a conversão experimental de tório em combustível baseado em urânio dentro do sistema.
Tório é melhor que urânio?
Não existe uma resposta simples. O ciclo do tório apresenta vantagens potenciais de aproveitamento de recursos e diferentes características de resíduos, mas também exige combustível físsil inicial, tecnologias específicas de processamento, proteção radiológica e sistemas ainda pouco utilizados comercialmente.
O Brasil possui tório?
O Brasil possui minerais que podem conter tório, especialmente monazita em determinadas ocorrências. A existência do recurso, porém, é apenas uma parte da cadeia necessária para qualquer utilização energética.
Do mineral à energia: entenda toda a cadeia do tório
O tório da China se conecta diretamente a temas que já exploramos: monazita, terras raras, radioatividade natural e minerais estratégicos.
O que é monazita? Terras raras, tório e radioatividade
Entenda por que a monazita pode concentrar elementos de terras raras e tório e como esse mineral conecta geologia, radioatividade natural e tecnologia.
Entender a monazitaTerras raras: a matéria-prima da tecnologia
Veja por que terras raras se tornaram estratégicas para eletrônicos, ímãs avançados, energia, mobilidade elétrica e outras tecnologias.
Explorar as terras rarasPor que Guarapari tem praias naturalmente radioativas?
Descubra como minerais contendo tório ajudam a explicar a radioatividade natural encontrada em determinados trechos das praias de Guarapari.
Entender GuarapariA verdade sobre a areia preta no Brasil
Veja como ondas, correntes e erosão podem concentrar minerais pesados nas praias e por que areia escura não significa automaticamente radioatividade.
Ler sobre a areia pretaPolítica Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos
Entenda como o Brasil discute beneficiamento, industrialização, inovação e soberania tecnológica em torno de minerais considerados estratégicos para a economia.
Conhecer a política mineralConclusão
A história do tório na China é mais interessante do que o título “China descobriu a maior mina de tório do mundo” faz parecer.
Bayan Obo não é uma descoberta nova.
É um gigantesco complexo mineral conhecido há quase um século e fundamental para a indústria de terras raras. O que os estudos recentes estão revelando com mais clareza é que esse mesmo sistema mineral pode guardar uma quantidade extraordinária de tório.
Ao mesmo tempo, a China desenvolveu algo que poucos países possuem: um reator experimental de sal fundido no qual pesquisadores já conseguiram demonstrar a transformação do tório dentro do ciclo nuclear.
É aí que as duas histórias se encontram.
Bayan Obo fornece o potencial mineral.
O programa TMSR tenta fornecer a tecnologia.
Se essa combinação chegar à escala comercial, um elemento que durante muito tempo foi tratado como problema ou subproduto da mineração de terras raras poderá assumir um papel completamente diferente na matriz energética.
Mas ainda há uma longa distância entre potencial geológico e eletricidade comercial.
E é justamente essa distância que vamos explorar no próximo artigo do TecMaker:
Reator de tório: como funciona e por que a China aposta nessa tecnologia.

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