Reator de tório: como funciona e por que a China aposta nessa tecnologia

Reator experimental de sal fundido com tubulações industriais em instalação de pesquisa sobre energia nuclear de tório.

Imagine um elemento encontrado naturalmente em rochas e minerais, inclusive na monazita, sendo transformado dentro de um reator em outro elemento capaz de sofrer fissão e liberar grandes quantidades de energia.

Essa é, de forma simplificada, a ideia por trás de um reator de tório.

Mas existe uma diferença fundamental em relação ao que muitos títulos na internet sugerem: o tório natural não é simplesmente colocado em um reator e queimado como combustível pronto. O tório-232 é um material fértil. Ele precisa capturar um nêutron e passar por uma sequência de transformações nucleares até produzir urânio-233, que é fissil e pode efetivamente liberar energia por fissão. A Agência Internacional de Energia Atômica explica o potencial e as limitações do ciclo do tório.

A China conseguiu dar um passo importante nessa direção. Seu reator experimental TMSR-LF1, construído em Wuwei, na província de Gansu, atingiu operação em potência máxima em outubro de 2024. Em 2025, pesquisadores chineses anunciaram que haviam obtido dados experimentais confirmando a conversão de tório em combustível baseado em urânio dentro desse sistema. O estágio do programa também aparece em documentação técnica da AIEA sobre os reatores de sal fundido em desenvolvimento.

Isso não significa que a China já esteja abastecendo cidades com energia de tório.

O TMSR-LF1 é um reator experimental de aproximadamente 2 MW térmicos. Seu objetivo principal é permitir que cientistas estudem, na prática, combustível líquido, química dos sais, materiais estruturais, corrosão, comportamento neutrônico e o próprio ciclo tório-urânio.

E é exatamente por isso que ele é tão importante.

Resposta rápida: como funciona um reator de tório?

Um reator de tório utiliza o tório-232 como material fértil. Após capturar um nêutron, ele se transforma em tório-233, depois em protactínio-233 e finalmente em urânio-233, que é fissil. O urânio-233 pode então sofrer fissão, liberar calor e novos nêutrons, permitindo que o processo continue.

No projeto experimental chinês, esse ciclo é combinado com outra tecnologia: o reator de sal fundido, no qual sais permanecem líquidos em altas temperaturas e podem atuar como meio para transportar combustível e calor. A AIEA possui uma explicação específica sobre o funcionamento dos Molten Salt Reactors.

Portanto, existem duas tecnologias que não devem ser confundidas:

tório = ciclo de combustível

sal fundido = arquitetura do reator

Elas podem trabalhar juntas, mas não são a mesma coisa.

Tório não é combustível nuclear pronto

Este é provavelmente o conceito mais importante para entender todo o tema.

O principal isótopo natural do tório é o tório-232. Ele é classificado como fértil, não como um material fissil capaz de sustentar sozinho uma reação em cadeia nas condições usuais de um reator.

Para iniciar o processo, o sistema precisa de uma fonte de nêutrons fornecida por um material fissil.

Entre os materiais que podem desempenhar esse papel em diferentes ciclos estão:

  • urânio-235;
  • urânio-233;
  • plutônio-239.

A AIEA explica que sistemas baseados em tório precisam de um combustível fissil inicial, justamente porque o tório-232 precisa primeiro ser convertido em urânio-233.

Isso derruba um mito frequente:

“Um reator de tório funciona apenas com tório.”

Não necessariamente.

O ciclo precisa ser iniciado e mantido de maneira adequada até que o próprio sistema consiga produzir urânio-233 a partir do tório.

Como o tório vira urânio-233?

O processo pode ser representado de maneira didática assim:

Tório-232 + nêutron → Tório-233 → Protactínio-233 → Urânio-233

O urânio-233 produzido é fissil.

Quando seu núcleo absorve um nêutron adequado, ele pode se dividir. Essa fissão libera:

energia + produtos de fissão + novos nêutrons.

Parte desses nêutrons pode provocar novas fissões.

Outros podem ser absorvidos por novos átomos de tório-232 e produzir mais urânio-233.

É daí que surge a possibilidade de criar um ciclo de combustível tório-urânio, processo estudado há décadas em programas de pesquisa nuclear e documentado pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Uma forma simples de imaginar

Pense no tório como uma matéria-prima que precisa ser convertida.

Ele não é exatamente o produto final que será “queimado”.

O reator transforma parte do tório em urânio-233.

É o urânio-233 que então realiza a maior parte do trabalho de fissão.

Essa diferença é essencial para evitar a impressão de que basta extrair tório de uma mina, colocá-lo em uma usina e começar a produzir eletricidade.

Existe uma cadeia nuclear sofisticada entre essas etapas.

O que é um reator de sal fundido?

Um Molten Salt Reactor (MSR) é um reator nuclear no qual sais líquidos em alta temperatura desempenham um papel central.

Existem diferentes arquiteturas.

Em alguns projetos, o combustível é sólido e o sal funciona principalmente como refrigerante.

Em outros, o próprio material combustível é dissolvido no sal líquido e circula pelo sistema. A AIEA descreve essas diferentes arquiteturas de reatores de sal fundido.

O projeto chinês TMSR-LF pertence à linha de combustível líquido.

Isso produz uma diferença visual importante em relação à imagem popular de um reator nuclear cheio de barras sólidas de combustível.

Em um projeto de combustível líquido, parte da física e da química do combustível acontece em um fluido em circulação.

Como o calor vira eletricidade?

O princípio final continua semelhante ao de outras centrais térmicas.

A fissão gera calor.

Esse calor precisa ser transferido para um sistema capaz de produzir trabalho mecânico e, finalmente, eletricidade.

Em um conceito de MSR com combustível líquido, o sal aquecido circula pelo núcleo e transfere energia para um circuito secundário. Esse calor pode então ser utilizado por um sistema de geração elétrica, normalmente envolvendo uma turbina.

De maneira simplificada:

fissão → calor no sal → trocador de calor → circuito secundário → turbina → gerador → eletricidade

O reator chinês atual, entretanto, deve ser entendido como plataforma experimental, não como uma grande usina comercial ligada a uma rede elétrica nacional.

Por que usar sal em vez de água?

A maioria das usinas nucleares comerciais atuais utiliza água como refrigerante.

Em muitos desses sistemas, a água precisa permanecer sob pressões elevadas para continuar líquida nas temperaturas de operação.

Os sais fundidos têm propriedades diferentes.

A AIEA explica que os sais fundidos podem operar em temperaturas elevadas e pressões relativamente baixas.

Isso abre algumas possibilidades interessantes.

Operação em pressão mais baixa

A baixa pressão pode reduzir determinados tipos de acidentes relacionados a rupturas de sistemas pressurizados ou perda de refrigerante. Isso é uma característica potencial de segurança do projeto, não uma garantia de que acidentes sejam impossíveis.

Temperaturas mais altas

Temperaturas elevadas podem aumentar a eficiência de conversão térmica e também disponibilizar calor para processos industriais.

Produção de calor industrial

A AIEA cita aplicações potenciais para o calor de alta temperatura produzido por MSRs, incluindo processos industriais e produção de hidrogênio.

Esse é um ponto particularmente interessante para a China, porque um reator avançado não precisa ser pensado apenas como “máquina de produzir eletricidade”.

Ele também pode funcionar como fonte de calor industrial.

Um reator de sal fundido não pode derreter?

Aqui existe outro mito curioso.

É comum encontrar a frase:

“Reator de sal fundido não pode sofrer meltdown porque o combustível já está derretido.”

A frase é atraente, mas simplifica demais a segurança nuclear.

É verdade que certos acidentes típicos de combustível sólido não acontecem exatamente da mesma forma em um sistema no qual o combustível já está dissolvido em sal.

Porém, um MSR continua possuindo outros cenários de segurança que precisam ser analisados.

A AIEA destaca mecanismos passivos possíveis. Em determinados projetos, se a temperatura aumenta, o sal se expande, modificando as condições neutrônicas e reduzindo a taxa de fissão. Alguns conceitos também incluem sistemas de drenagem nos quais combustível líquido pode escoar para tanques configurados para interromper a reação em cadeia.

Isso é muito diferente de afirmar que:

“nada pode dar errado.”

Sistemas nucleares continuam exigindo contenção, controle, monitoramento, materiais adequados, gerenciamento térmico e regulamentação rigorosa.

Por que a China escolheu tório e sal fundido?

Não existe apenas um motivo.

A estratégia combina recursos minerais, segurança energética, pesquisa nuclear e possíveis aplicações industriais.

A China iniciou seu programa TMSR há mais de uma década sob coordenação da Chinese Academy of Sciences e do Shanghai Institute of Applied Physics. O SINAP mantém os sistemas de reatores de sal fundido entre suas principais linhas de pesquisa em energia avançada.

A aposta também faz sentido no contexto dos recursos minerais chineses.

No artigo anterior do TecMaker sobre tório na China e Bayan Obo, mostramos que o país está reavaliando o potencial de tório associado à enorme cadeia de terras raras.

Assim, a estratégia começa a formar uma sequência:

recurso mineral → separação do tório → combustível → reator → calor e energia

A existência de reservas ou recursos, porém, não garante que essa cadeia será economicamente competitiva.

O que a China já conseguiu provar?

Aqui é importante separar fato demonstrado de objetivo futuro.

CONFIRMADO — reator experimental construído

O TMSR-LF1 foi construído na China como um reator experimental de sal fundido de aproximadamente 2 MW térmicos, conforme registros reunidos pela Agência Internacional de Energia Atômica.

CONFIRMADO — potência máxima atingida

Documento recente da AIEA registra que o TMSR-LF1 alcançou operação em potência máxima em outubro de 2024.

CONFIRMADO — tório foi carregado no experimento

A Chinese Academy of Sciences informou em novembro de 2025 que o sistema havia recebido tório e produzido dados experimentais sobre sua utilização.

CONFIRMADO — conversão tório-urânio demonstrada

A CAS também anunciou que pesquisadores conseguiram confirmar experimentalmente a conversão de tório em combustível baseado em urânio, validando uma etapa essencial do ciclo tório-urânio em um reator de sal fundido.

NÃO CONFIRMADO — energia comercial em grande escala

Esses resultados não significam que a China já possua uma rede de usinas comerciais de tório.

O equipamento continua sendo experimental, e a transição de um reator de 2 MW térmicos para instalações capazes de produzir energia competitiva em grande escala exige uma série de etapas adicionais de engenharia, licenciamento e demonstração.

Por que 2 MW não significa uma usina comercial?

Porque existe uma diferença enorme entre demonstrar que uma tecnologia funciona e provar que ela funciona por décadas, com disponibilidade elevada, custo competitivo e segurança licenciável.

Um reator experimental pode testar:

  • materiais;
  • química dos sais;
  • comportamento neutrônico;
  • instrumentação;
  • operação do combustível;
  • corrosão;
  • remoção de produtos;
  • resposta a diferentes condições.

Uma usina comercial precisa, além disso, demonstrar confiabilidade de longo prazo, cadeia de suprimentos, manutenção, viabilidade econômica e atendimento aos requisitos regulatórios.

A própria AIEA aponta que os MSRs ainda precisam avançar na validação de códigos computacionais, instalações experimentais, materiais, processos químicos e metodologias de segurança antes de uma adoção comercial ampla.

O maior desafio pode estar no material do reator

Sal quente, radiação e materiais metálicos vivendo juntos durante anos não formam um ambiente simples.

A corrosão é um dos principais desafios técnicos dos reatores de sal fundido.

A AIEA identifica explicitamente a compatibilidade entre sais e materiais estruturais como uma das áreas fundamentais de pesquisa.

O próprio SINAP continua publicando pesquisas sobre esse problema.

Em estudos ligados ao programa chinês, pesquisadores analisam ligas desenvolvidas para resistir ao ambiente químico do reator e investigam mecanismos de degradação e fissuração associados à interação entre materiais, sais e produtos de fissão. Um exemplo pode ser consultado diretamente no Shanghai Institute of Applied Physics.

Isso revela algo importante:

o desafio de um reator avançado não está apenas na física nuclear.

Está também na ciência dos materiais.

A química do sal também precisa ser controlada

Não basta derreter sal e colocar combustível dentro.

A composição química precisa ser cuidadosamente controlada.

Impurezas podem influenciar a corrosão.

Produtos de fissão aparecem durante a operação.

Elementos precisam ser monitorados ou separados dependendo da arquitetura adotada.

A AIEA considera processamento do combustível, química do sal e remoção de produtos de fissão áreas importantes de desenvolvimento dos MSRs.

Em fevereiro de 2026, o SINAP publicou também progresso relacionado à separação e recuperação de sais fundidos contendo tório, mostrando que a engenharia química do combustível continua sendo uma frente ativa do programa de pesquisas do instituto.

Reator de tório produz lixo nuclear?

Sim.

Tório não significa energia nuclear sem resíduos radioativos.

Quando o urânio-233 sofre fissão, são produzidos fragmentos de fissão radioativos.

Portanto, continuam existindo materiais que precisam ser controlados, armazenados e eventualmente processados ou destinados adequadamente.

Alguns ciclos de tório podem produzir perfis diferentes de resíduos e reduzir determinados actinídeos transurânicos em comparação com certos ciclos tradicionais. Mas isso não equivale a “zero lixo nuclear”. A AIEA trata justamente a redução potencial de resíduos como uma característica de alguns projetos, não como sua eliminação.

Essa diferença deve aparecer claramente no TecMaker porque é uma das afirmações exageradas mais comuns sobre tório.

Tório é mais seguro que urânio?

A pergunta, isoladamente, é mal formulada.

Segurança não depende somente do elemento utilizado.

Depende de:

combustível + arquitetura do reator + sistemas de segurança + materiais + operação + regulamentação + gerenciamento de acidentes.

Um reator de sal fundido pode apresentar vantagens de projeto, como menor pressão de operação e determinados mecanismos passivos.

Mas isso não permite concluir que:

“qualquer reator de tório é automaticamente mais seguro que qualquer reator de urânio.”

É preciso comparar projetos específicos.

Além disso, MSR e tório não são sinônimos.

Um MSR pode trabalhar com outros ciclos de combustível, enquanto o tório também pode ser utilizado em arquiteturas nucleares diferentes.

O tório resolve o problema da proliferação nuclear?

Também não existe uma resposta simples.

É comum encontrar a afirmação de que tório seria “impossível de usar para armas”.

Isso é exagerado.

O ciclo produz urânio-233, que é material fissil.

Ao mesmo tempo, características isotópicas e produtos associados ao ciclo podem tornar manuseio e desvio tecnicamente mais complexos em determinadas configurações.

Portanto, projetos baseados em tório continuam sujeitos a salvaguardas nucleares, controle de materiais e requisitos de não proliferação.

Energia nuclear não deixa de exigir segurança internacional apenas porque o elemento inicial é tório.

Então qual é a verdadeira vantagem do tório?

Talvez a maior vantagem não seja uma característica isolada.

É a possibilidade de diversificar os recursos disponíveis para a energia nuclear.

A AIEA estima que o tório seja mais abundante na crosta terrestre que o urânio e destaca seu potencial para produzir urânio-233 por conversão neutrônica.

Além disso, o tório aparece associado a minerais já explorados por outras razões.

A monazita, por exemplo, é simultaneamente fonte de elementos de terras raras e uma das principais fontes minerais de tório.

Isso cria uma ligação direta com o cluster que estamos construindo no TecMaker:

areia pretamonazitaterras raras → tório → energia nuclear.

E onde entra Bayan Obo?

Bayan Obo entra do lado da matéria-prima.

O reator entra do lado da tecnologia.

No artigo anterior, vimos como Bayan Obo chamou atenção pelo enorme potencial de tório associado às terras raras.

Neste artigo, estamos vendo o outro extremo da cadeia.

A pergunta deixa de ser:

Quanto tório existe?

E passa a ser:

É possível transformar esse tório em energia de maneira tecnicamente e economicamente viável?

O TMSR-LF1 começa a responder à parte técnica dessa pergunta.

A parte econômica ainda está longe de estar resolvida.

A China venceu a corrida pelo reator de tório?

Ainda é cedo para afirmar isso.

O avanço chinês é relevante porque moveu parte do ciclo tório-sal fundido do campo puramente conceitual para uma plataforma nuclear experimental em funcionamento. Em 2025, a Chinese Academy of Sciences classificou a conversão experimental tório-urânio como um marco para o programa.

Mas uma tecnologia energética só alcança maturidade comercial quando consegue demonstrar, entre outros pontos:

  • operação prolongada;
  • confiabilidade;
  • manutenção;
  • segurança;
  • gerenciamento do combustível;
  • licenciamento;
  • produção industrial de componentes;
  • custo competitivo.

O próprio cenário internacional ainda é predominantemente de pesquisa e demonstração em MSRs. A AIEA registra projetos em vários países e considera possível que tecnologias desse tipo comecem a avançar para implantação a partir da década de 2030, mas ainda existem questões importantes a resolver.

O Brasil poderia usar tório?

Do ponto de vista geológico, o Brasil possui ocorrências de minerais contendo tório, principalmente associadas à monazita.

A relação pode ser observada inclusive em outro contexto brasileiro: as praias naturalmente radioativas de Guarapari, onde minerais como a monazita ajudam a explicar determinadas concentrações naturais de radionuclídeos.

Isso, porém, está muito distante de significar que o Brasil poderia simplesmente copiar um reator chinês.

Uma cadeia nuclear de tório exigiria capacidades em:

geologia → separação química → combustível → materiais → engenharia nuclear → licenciamento → radioproteção → gerenciamento de resíduos → operação.

O exemplo chinês mostra justamente a diferença entre possuir matéria-prima e possuir um ecossistema tecnológico capaz de utilizá-la.

É por isso que o artigo sobre monazita, o conteúdo sobre terras raras, a discussão brasileira sobre minerais críticos e estratégicos e o conteúdo sobre Bayan Obo se conectam tão bem a esta pauta.

O que isso muda na prática?

O avanço chinês não significa que a conta de luz começará a ser abastecida por tório em breve.

O que mudou foi o grau de maturidade experimental.

A cadeia pode ser resumida assim:

Antes:
tório → possibilidade teórica → experimentos e estudos.

Agora, na China:
tório → reator experimental → conversão tório-urânio observada → dados reais de operação.

O próximo salto é muito mais difícil:

experimento → demonstração em escala maior → licenciamento → operação prolongada → economia comprovada → comercialização.

É justamente nessa passagem que muitas tecnologias promissoras deixam de avançar.

Portanto, o principal indicador a acompanhar nos próximos anos não é uma manchete dizendo que o “tório pode fornecer energia por milhares de anos”.

É saber se os próximos reatores conseguem operar de forma segura, estável, reproduzível e economicamente competitiva.

Cinco mitos sobre reatores de tório

“Tório é colocado no reator e começa a produzir energia.”
Não. O tório-232 precisa ser convertido em urânio-233.

“Reator de tório e reator de sal fundido são a mesma coisa.”
Não. Um conceito descreve o ciclo de combustível; o outro descreve uma família de arquiteturas de reator.

“Tório não gera resíduos radioativos.”
Falso. A fissão continua produzindo resíduos radioativos.

“A China já possui usinas comerciais de tório.”
Não. O marco confirmado é um reator experimental de 2 MW térmicos e a demonstração do ciclo tório-urânio.

“Reatores de sal fundido não apresentam riscos.”
Também falso. Eles possuem características potencialmente favoráveis de segurança, mas continuam enfrentando desafios de materiais, corrosão, química, operação e regulamentação.

Perguntas frequentes sobre reatores de tório

O que é um reator de tório?

É um sistema nuclear que utiliza o tório dentro de seu ciclo de combustível. O tório-232 absorve nêutrons e pode dar origem ao urânio-233, que é fissil e pode liberar energia por fissão.

O tório sofre fissão diretamente?

O tório-232 natural é principalmente utilizado como material fértil. Ele precisa ser convertido em um material fissil, sobretudo urânio-233, para sustentar eficientemente o ciclo nuclear.

O que é um reator de sal fundido?

É uma família de reatores em que sais líquidos em alta temperatura atuam como refrigerante e, em alguns projetos, também carregam o combustível nuclear dissolvido. A AIEA explica o conceito e as principais arquiteturas.

A China já tem um reator de tório funcionando?

A China possui o TMSR-LF1, um reator experimental de sal fundido de aproximadamente 2 MW térmicos. Ele atingiu potência máxima em outubro de 2024, e a Chinese Academy of Sciences anunciou em 2025 resultados da conversão experimental de tório em combustível baseado em urânio.

O reator chinês fornece eletricidade para cidades?

Não há evidência nas fontes oficiais consultadas de que o TMSR-LF1 opere como uma usina comercial destinada a abastecer cidades. Ele é uma instalação experimental usada para pesquisa e desenvolvimento.

Reatores de tório são mais seguros?

Alguns projetos de sal fundido possuem características potencialmente favoráveis, como baixa pressão de operação e mecanismos passivos. Isso não permite generalizar que todo reator de tório seja automaticamente mais seguro que todo reator convencional.

Por que ainda não existem muitas usinas de tório?

A AIEA aponta obstáculos relacionados a custos, pouca experiência industrial acumulada, processamento do combustível, materiais, corrosão, manuseio e maturidade regulatória.

Conclusão

O reator de tório não é uma máquina que simplesmente “queima tório”.

Ele é parte de um ciclo muito mais interessante.

O tório-232 recebe um nêutron, passa por transformações nucleares e pode dar origem ao urânio-233. É esse material fissil que permite extrair grande quantidade de energia por meio da fissão.

A China decidiu combinar esse ciclo com uma das arquiteturas mais estudadas entre os reatores nucleares avançados: o reator de sal fundido.

E já passou de algumas etapas importantes.

O TMSR-LF1 atingiu potência máxima, recebeu tório e produziu dados experimentais que confirmaram a conversão tório-urânio, segundo informações divulgadas pela Chinese Academy of Sciences e registros técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica.

Mas a parte mais difícil talvez esteja começando agora.

É preciso provar que essa tecnologia pode sair de um pequeno reator experimental e chegar a sistemas maiores, operando durante longos períodos, resistindo à corrosão, processando combustível com segurança e produzindo energia a um custo competitivo.

É aí que saberemos se o tório será apenas mais um capítulo fascinante da história da engenharia nuclear — ou se poderá realmente ocupar um lugar importante na matriz energética do futuro.

Continue acompanhando o TecMaker para entender, de forma simples e prática, como ciência, minerais estratégicos e novas tecnologias de energia estão transformando o mundo.

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