Anomalia Magnética do Atlântico Sul: o que realmente acontece sobre o Brasil

Anomalia Magnética do Atlântico Sul sobre a América do Sul e o oceano Atlântico, com linhas do campo magnético terrestre, partículas energéticas e um satélite em órbita.

Existe uma enorme região sobre a América do Sul e o Atlântico onde o campo magnético terrestre é mais fraco. Ela é conhecida como Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) e representa um problema real para satélites, telescópios espaciais e outros equipamentos em órbita baixa.

Mas ela não é uma rachadura no escudo magnético da Terra, não possui um “buraco” físico aberto sobre o Brasil e não faz a NASA desligar todos os computadores de suas espaçonaves sempre que elas passam pelo país.

O fenômeno é mais interessante — e mais complexo — do que essas versões sugerem.

Dados recentes da missão Swarm, da Agência Espacial Europeia, mostram que a região continua evoluindo. O World Magnetic Model da NOAA também indica que a anomalia segue se aprofundando e se deslocando para oeste.

E o assunto ganhou ainda mais relevância no Brasil em 2026: entre 21 e 23 de setembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais realiza em São José dos Campos um simpósio internacional dedicado especificamente à AMAS, em cooperação com instituições científicas chinesas. Simpósio 2026 sobre a AMAS no INPE

O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul?

A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é uma extensa região sobre a América do Sul e o Atlântico Sul em que a intensidade do campo magnético terrestre é menor do que em outras áreas comparáveis do planeta.

Essa redução permite que partículas energéticas aprisionadas nos cinturões de radiação da Terra alcancem altitudes menores do que normalmente alcançariam. Por isso, a AMAS chama tanta atenção de engenheiros e cientistas responsáveis por satélites e missões espaciais. NASA — South Atlantic Anomaly

O próprio INPE descreve a AMAS como a região em que o cinturão interno de radiação terrestre se aproxima mais da superfície, tornando-a especialmente relevante para segurança de satélites e estudos de clima espacial.

Em outras palavras, não há uma abertura no campo magnético. Há uma proteção magnética relativamente menor em uma área enorme e dinâmica.

A AMAS é realmente uma “fenda” no campo magnético?

Não.

“Fenda”, “buraco” e “amassado” são metáforas usadas para tornar o fenômeno mais fácil de visualizar.

A própria NASA já descreveu a AMAS como um dent, algo semelhante a um “amassado” no campo magnético terrestre. NASA — o “amassado” no campo magnético da Terra

Fisicamente, porém, nenhuma estrutura da Terra está rachada.

O campo magnético varia de intensidade e direção conforme a posição. Na região da AMAS, sua intensidade é excepcionalmente baixa.

Por isso, uma descrição mais correta seria:

a AMAS é uma região de enfraquecimento do campo geomagnético terrestre, não uma fenda física no planeta ou na magnetosfera.

Por que o campo magnético fica mais fraco nessa região?

Grande parte do campo magnético da Terra é produzida pelo movimento de material eletricamente condutor no núcleo externo líquido do planeta.

Esse sistema não funciona como um ímã perfeitamente centralizado e simétrico.

A distribuição do campo possui componentes complexas. Dados recentes da missão Swarm relacionam parte da evolução da AMAS a regiões de fluxo magnético reverso próximas à fronteira entre o núcleo e o manto.

Nessas regiões, parte do campo aponta de maneira diferente do padrão predominante e contribui para reduzir a intensidade observada acima da superfície. ESA — dados da missão Swarm sobre a AMAS

É um fenômeno originado milhares de quilômetros abaixo de nossos pés, mas com consequências observáveis centenas de quilômetros acima deles.

O centro da Anomalia Magnética do Atlântico Sul fica no Brasil?

Aqui está uma das partes que mais exigem precisão.

O Brasil está dentro de uma porção relevante da região afetada pela AMAS, mas não é correto afirmar hoje que existe um único “epicentro” fixo situado exatamente sobre o território brasileiro.

A posição depende da altitude, da época e do modelo utilizado para representar o campo geomagnético.

Segundo o relatório mais recente do World Magnetic Model, para 1º de janeiro de 2026, a 500 km de altitude, o ponto de menor intensidade previsto estava em aproximadamente 22,28° S e 300,44° de longitude no sistema de 0° a 360°, equivalente a cerca de 59,56° O. Isso coloca o mínimo atual a oeste do território brasileiro. NOAA/NCEI — State of the Geomagnetic Field 2025

O valor previsto para esse ponto era de aproximadamente 18.285 nanoteslas a 500 km de altitude.

Então de onde veio a história de que o centro fica no Brasil?

Há uma explicação interessante.

Documentos científicos brasileiros mais antigos realmente localizaram o centro da AMAS próximo ao território nacional. Um resumo científico do INPE, por exemplo, descrevia a região central nas proximidades do Observatório Espacial do Sul, em São Martinho da Serra, no Rio Grande do Sul.

Isso não significa que os dados atuais estejam errados.

A anomalia se desloca e muda de forma com o tempo. Além disso, diferentes estudos podem trabalhar com altitudes e critérios de intensidade diferentes.

Portanto, a afirmação “o centro da AMAS fica sobre o Brasil” pode ter origem em descrições historicamente válidas, mas não deve ser apresentada como uma localização fixa e atual.

Essa distinção é importante.

A anomalia está crescendo?

Sim.

Uma análise publicada a partir de 11 anos de medições da constelação Swarm mostrou que a região de campo enfraquecido aumentou entre 2014 e 2025.

Segundo a Agência Espacial Europeia, a expansão nesse período correspondeu a uma área próxima de metade do tamanho da Europa continental. Os dados também mostraram enfraquecimento particularmente intenso em uma região do Atlântico a sudoeste da África desde 2020. ESA — Swarm revela expansão da região de campo magnético fraco

O relatório da NOAA publicado no fim de 2025 acrescenta outro dado importante: entre 2025 e 2026, a área delimitada pelo contorno de 25.000 nT na superfície aumentou cerca de 8%, segundo os modelos WMM2025 e WMMHR2025.

A NOAA também registra que a AMAS continua se aprofundando e migrando para oeste.

Por isso, não faz sentido imaginá-la como um buraco imóvel com um único centro permanente.

A AMAS está se dividindo em duas?

Há evidências de que sua estrutura se tornou mais complexa.

Observações da NASA já mostravam que a região de menor intensidade começava a se separar em dois lóbulos ou células. NASA — evolução e divisão da Anomalia Magnética do Atlântico Sul

A missão Swarm também acompanha essas mudanças.

Na prática, isso reforça outra conclusão: representar a AMAS como um círculo ou “buraco” simples sobre o mapa do Brasil é uma simplificação excessiva de um fenômeno tridimensional e dinâmico.

Por que a Anomalia Magnética do Atlântico Sul preocupa satélites?

Na região da AMAS, partículas energéticas conseguem alcançar mais facilmente altitudes utilizadas por espaçonaves em órbita baixa.

Essas partículas podem atingir componentes eletrônicos e sensores.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • erros transitórios em circuitos eletrônicos;
  • alterações em dados coletados por sensores;
  • aumento de ruído em detectores;
  • reinicialização de equipamentos;
  • degradação de componentes pela exposição acumulada;
  • necessidade de interromper determinadas observações.

A NASA explica que a radiação de partículas na região pode interferir na coleta de dados e até provocar falhas em computadores embarcados de satélites.

Isso não significa que qualquer satélite que atravesse a região irá falhar. Missões diferentes utilizam órbitas, componentes, blindagens e estratégias de proteção diferentes.

Esse problema faz parte de uma questão maior já abordada pelo TecMaker: como fenômenos espaciais podem afetar satélites, GPS, internet e energia.

O Hubble realmente se desliga quando passa pela AMAS?

É aqui que uma frase verdadeira costuma virar exagero.

O Telescópio Espacial Hubble não simplesmente “desliga tudo”.

A documentação operacional atual do Space Telescope Science Institute informa que, durante as passagens mais intensas pela AMAS, normalmente não são realizadas observações astronômicas ou calibrações devido ao elevado fundo de partículas nos instrumentos e sensores de orientação. STScI — restrições orbitais do Hubble na AMAS

O Hubble pode atravessar a região durante sete a nove órbitas consecutivas por dia, dependendo da geometria orbital.

Determinados instrumentos adotam medidas ainda mais específicas.

No Cosmic Origins Spectrograph (COS), por exemplo, as observações são interrompidas durante a passagem pela AMAS e a alta tensão do detector é reduzida para evitar danos. STScI — proteção do detector COS durante a AMAS

A própria NASA também resume que o Hubble reduz ou interrompe a operação de seus instrumentos científicos durante essas passagens.

Portanto, a formulação correta é:

o Hubble adapta suas operações e protege instrumentos científicos ao atravessar a Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Isso não significa desligar todos os computadores do telescópio cada vez que ele passa sobre o Brasil.

Outras missões utilizam estratégias semelhantes. O observatório espacial Fermi, por exemplo, interrompe a coleta de dados e coloca os instrumentos em estado protegido quando atravessa a AMAS. NASA/Fermi — operação durante a South Atlantic Anomaly

Para entender por que sensores espaciais exigem tantos cuidados, vale também conhecer como os telescópios modernos revelam o universo profundo.

A AMAS oferece perigo para quem vive no Brasil?

Para quem está na superfície, não há evidência de que a Anomalia Magnética do Atlântico Sul represente atualmente um risco direto significativo à população.

A atmosfera terrestre continua sendo uma barreira extremamente eficiente contra grande parte das partículas energéticas.

A NASA afirma que, embora a AMAS possa causar problemas a equipamentos no espaço, as partículas associadas ao fenômeno não afetam a vida na superfície terrestre. NASA — magnetosfera e proteção da Terra

Portanto, morar no Sul, Sudeste ou em qualquer outra região brasileira abrangida pela AMAS não equivale a viver exposto ao ambiente de radiação enfrentado por um satélite em órbita.

A AMAS pode afetar GPS e comunicações no Brasil?

O assunto exige mais cautela do que simplesmente dizer que “a anomalia derruba o GPS”.

O ambiente ionosférico brasileiro é complexo. Irregularidades na ionosfera podem afetar sinais de rádio e navegação por satélite, e parte desses fenômenos é objeto de pesquisa conjunta entre Brasil e NASA.

A missão SPORT, uma parceria envolvendo NASA e pesquisadores brasileiros, foi projetada para estudar bolhas de plasma e cintilação ionosférica — fenômenos capazes de degradar sinais de GPS e comunicações. A documentação da NASA também relaciona o interesse brasileiro nessas pesquisas às condições particulares do setor sul-americano e à AMAS. NASA — missão Brasil–EUA SPORT e efeitos sobre GPS

Isso não significa, porém, que qualquer erro de GPS, queda de internet ou problema de telefonia no Brasil possa ser atribuído à Anomalia Magnética do Atlântico Sul.

Tempestades geomagnéticas, bolhas de plasma, condições ionosféricas, infraestrutura terrestre, equipamentos e outros fatores precisam ser avaliados separadamente.

A Anomalia Magnética do Atlântico Sul significa que os polos da Terra vão se inverter?

Não há evidência suficiente para concluir isso.

Inversões do campo magnético terrestre aconteceram muitas vezes ao longo da história geológica.

Porém, a queda de intensidade observada atualmente no Atlântico Sul está dentro de níveis que os pesquisadores consideram compatíveis com variações naturais conhecidas do campo geomagnético. ESA — AMAS e a hipótese de inversão dos polos

A existência da anomalia, portanto, não é prova de que uma inversão global dos polos esteja prestes a acontecer.

Confundir essas duas questões transforma um fenômeno científico em uma previsão que os dados atuais não sustentam.

Por que o Brasil é importante para estudar a AMAS?

Aqui existe um ponto muito mais interessante do que simplesmente dizer que “o buraco está em cima do Brasil”.

O país possui uma posição privilegiada para investigar o fenômeno.

O INPE estuda a região há décadas. Em 1968, o instituto iniciou atividades com balões estratosféricos dedicados a pesquisas de atmosfera, astrofísica e geofísica. Naquele ano, cerca de 130 balões foram lançados para realizar medições de raios X na região da Anomalia Magnética do Atlântico Sul. INPE — história das pesquisas espaciais brasileiras

O primeiro CubeSat científico brasileiro, o NanosatC-Br1, também levou um magnetômetro capaz de medir o campo magnético terrestre.

Dados obtidos pela missão confirmaram a presença da AMAS e apresentaram valores compatíveis com modelos internacionais do campo geomagnético. INPE — NanosatC-Br1 e medições da AMAS

A própria missão NanosatC-BR possui entre seus objetivos oficiais o monitoramento das condições geomagnéticas na superfície e em órbita sobre a AMAS e o setor brasileiro do eletrojato ionosférico.

E essa tradição continua em 2026.

Entre 21 e 23 de setembro, o INPE recebe em São José dos Campos pesquisadores brasileiros, chineses e de outros países para um simpósio dedicado às observações espaciais e terrestres da AMAS.

Entre os objetivos estão desenvolver sistemas integrados de monitoramento, fortalecer serviços de clima espacial e ampliar a cooperação científica sino-brasileira. INPE — Simpósio 2026 sobre a Anomalia Magnética do Atlântico Sul

A posição do Brasil, portanto, não é apenas uma curiosidade geográfica. Ela transformou o país em um laboratório natural importante para geofísica, clima espacial e tecnologia de satélites.

O que isso muda na prática?

A principal consequência da Anomalia Magnética do Atlântico Sul não está nas pessoas caminhando pelas ruas do Brasil, mas na infraestrutura tecnológica que opera centenas de quilômetros acima delas.

Quanto maior nossa dependência de satélites para comunicação, previsão do tempo, navegação, sensoriamento remoto, pesquisa e observação da Terra, maior a importância de conhecer o ambiente de radiação enfrentado por esses equipamentos.

A AMAS também cria uma conexão pouco intuitiva entre áreas muito diferentes da ciência.

Processos que acontecem no núcleo profundo da Terra alteram o campo magnético. Esse campo influencia a trajetória de partículas energéticas no espaço próximo ao planeta. Essas partículas, por sua vez, podem interferir em componentes eletrônicos construídos por seres humanos.

É essa ligação entre geofísica profunda, clima espacial e engenharia de satélites que torna a AMAS muito mais interessante do que a ideia simplificada de uma “fenda sobre o Brasil”.

Perguntas frequentes

A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é um buraco?

Não. A AMAS é uma região onde a intensidade do campo geomagnético é relativamente baixa. “Buraco”, “fenda” ou “amassado” são metáforas usadas para representar o fenômeno.

A AMAS cobre o Brasil?

Sim. Parte da região de campo enfraquecido abrange território brasileiro, mas a anomalia se estende por uma área muito maior da América do Sul e do Atlântico.

O centro da anomalia fica no Brasil?

Atualmente, não é correto dizer que existe um centro fixo da AMAS localizado sobre o Brasil. Modelos atuais da NOAA colocam o mínimo de intensidade a 500 km de altitude mais a oeste, enquanto documentos históricos já localizaram regiões centrais próximas ao Sul do Brasil. A anomalia muda com o tempo e sua posição também depende da altitude e da definição utilizada.

O Hubble é desligado quando passa sobre o Brasil?

Não dessa forma. Durante passagens pela AMAS, observações científicas podem ser interrompidas e determinados instrumentos entram em condições de proteção. Isso não significa desligar todos os sistemas ou computadores do Hubble simplesmente porque sua órbita atravessa o Brasil.

A AMAS faz mal à saúde?

Não há evidência de risco direto significativo para pessoas na superfície nas condições atuais. O principal problema ocorre com espaçonaves e equipamentos em órbita baixa.

A anomalia está aumentando?

Sim. Medições da missão Swarm e modelos geomagnéticos recentes mostram expansão, aprofundamento e deslocamento da região de baixa intensidade.

Conclusão

A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é real, está evoluindo e representa um desafio importante para a tecnologia espacial. O Brasil está diretamente ligado à região e possui um papel histórico e científico relevante em seu monitoramento.

Mas a ciência disponível em 2026 não sustenta a narrativa simplificada de uma “fenda magnética com centro exato no Brasil” que faria a NASA desligar todos os computadores de suas espaçonaves.

A realidade é mais precisa e, na verdade, mais interessante: uma enorme região de campo geomagnético enfraquecido permite que partículas energéticas alcancem altitudes ocupadas por satélites, obrigando diferentes missões a desenvolver estratégias específicas de proteção.

E enquanto essa região continua mudando, o Brasil permanece em uma posição privilegiada para estudá-la.

Para continuar entendendo como o ambiente espacial pode interferir diretamente na tecnologia que usamos na Terra, veja também o guia do TecMaker sobre fenômenos espaciais que afetam internet, satélites, GPS e energia.

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