O exoplaneta LHS 1140 b, localizado a aproximadamente 49 anos-luz da Terra, tornou-se um dos mundos mais importantes para o estudo de atmosferas fora do Sistema Solar. Astrônomos detectaram hélio escapando das regiões superiores de sua atmosfera, oferecendo uma evidência direta de que esse planeta, situado na zona habitável de uma estrela anã vermelha, ainda conserva uma camada de gases ao seu redor. O resultado foi publicado em julho de 2026 na revista científica Science.
A descoberta é realmente significativa, mas não significa que os pesquisadores tenham encontrado uma segunda Terra, um planeta habitado ou uma atmosfera respirável. Também não confirma a existência de oceanos líquidos. O que foi observado é mais específico: átomos de hélio absorvendo parte da luz da estrela enquanto escapam para o espaço.
Em linguagem simples, a frase “detectamos uma atmosfera em um planeta rochoso” resume a importância da notícia, mas precisa de uma explicação. O LHS 1140 b possui um interior provavelmente rico em rocha, porém sua densidade indica a presença de algum componente de baixa densidade, que pode incluir uma atmosfera, grande quantidade de água ou uma combinação dos dois. Estudos anteriores chegaram a questionar se ele deveria ser classificado como uma super-Terra puramente rochosa.
A força da nova pesquisa está justamente em retirar uma parte dessa discussão do campo puramente teórico. Mesmo sem conhecermos toda a composição do planeta, agora existe uma assinatura observacional clara de material atmosférico em suas camadas superiores.
O que os cientistas descobriram no LHS 1140 b
Os pesquisadores observaram o sistema planetário LHS 1140 com o espectrógrafo WINERED, instalado no telescópio Magellan Clay, de 6,5 metros, no Observatório Las Campanas, no Chile.
Na noite de 23 de setembro de 2024, ocorreu uma configuração particularmente favorável: os dois planetas conhecidos do sistema, LHS 1140 b e LHS 1140 c, passaram diante de sua estrela com apenas 39 minutos de diferença entre os trânsitos.
Ao longo de aproximadamente seis horas e meia, os cientistas coletaram 70 espectros:
- 35 antes ou depois dos trânsitos;
- 12 durante a passagem do LHS 1140 c;
- 23 durante a passagem do LHS 1140 b.
Foi nos dados do planeta b que apareceu uma absorção de luz compatível com hélio metaestável. Nenhum sinal equivalente foi encontrado no planeta c. Os detalhes das observações, da coleta dos espectros e da análise estão disponíveis no artigo científico completo sobre o escape de hélio no LHS 1140 b.
A absorção ocorreu em torno de 10.833 angstroms, uma região do infravermelho próximo onde três linhas espectrais produzidas pelo hélio aparecem muito próximas umas das outras. Esse conjunto é conhecido como tripleto de hélio.
A linha mais intensa apresentou profundidade de absorção de aproximadamente 1,24%. O tamanho da região que produziu esse bloqueio equivale a cerca de 1,52 vez o raio visível do planeta, indicando que o gás se estende muito além das camadas mais profundas da atmosfera.
Como uma atmosfera pode ser detectada sem ser fotografada
Nenhum telescópio atual consegue mostrar o LHS 1140 b como uma esfera detalhada com nuvens, mares ou continentes. O planeta está distante demais e aparece praticamente fundido ao brilho de sua estrela.
A detecção foi possível por meio da espectroscopia de transmissão.
Quando o planeta passa em frente à estrela, ele bloqueia uma pequena fração da luz. Se houver uma atmosfera, parte da luz estelar atravessa essa camada de gases antes de chegar aos instrumentos na Terra.
Cada elemento químico absorve comprimentos de onda específicos. Ao decompor a luz em um espectro, os astrônomos procuram essas pequenas ausências de luz — verdadeiras impressões digitais químicas.
É semelhante a observar a luz de uma lâmpada atravessando um recipiente transparente. Mesmo que o gás dentro dele seja invisível aos nossos olhos, determinados comprimentos de onda podem revelar sua presença.
No caso do LHS 1140 b, a impressão encontrada corresponde ao hélio em um estado energético chamado metaestável.
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O hélio é uma espécie de rastro da atmosfera
A descoberta não mostra toda a atmosfera do planeta. Ela revela principalmente uma região externa, rarefeita e em processo de escape.
Uma comparação possível é a fumaça saindo por uma janela. Ver a fumaça não permite saber tudo o que existe dentro da casa, mas confirma que há material vindo de seu interior.
O hélio funciona como esse rastro. A radiação de alta energia emitida pela estrela aquece as camadas superiores da atmosfera. Parte do gás ganha energia suficiente para vencer gradualmente a gravidade do planeta e fluir para o espaço.
Os pesquisadores interpretam o sinal observado como um escape hidrodinâmico impulsionado por raios X e radiação ultravioleta extrema da estrela. Explicações alternativas, como interferência da atmosfera terrestre, atividade estelar ou escolhas no processamento dos dados, foram avaliadas e consideradas insuficientes para reproduzir o sinal de 2024. Uma análise independente dos dados também recuperou a absorção de hélio.
O sinal apareceu não apenas durante o trânsito, mas também antes de o disco do planeta começar a cruzar completamente a estrela. Esse comportamento é compatível com uma extensão de gás à frente do planeta em sua órbita, chamada de cauda dianteira.
Também houve uma indicação mais fraca de gás depois do trânsito, mas os próprios pesquisadores classificam essa possível cauda traseira como evidência apenas preliminar.
Leitura relacionada no TecMaker: o hélio também está no centro de pesquisas sobre energia e exploração lunar. Entenda as diferenças e os desafios no artigo Hélio-3: por que a Lua virou centro da nova disputa energética.
Principais números do exoplaneta LHS 1140 b
As medições mais precisas utilizadas no estudo de 2026 indicam:
- Massa: 5,60 ± 0,19 vezes a massa da Terra;
- Raio: 1,730 ± 0,025 vez o raio da Terra;
- Período orbital: aproximadamente 24,7 dias;
- Distância orbital: cerca de 0,095 unidade astronômica;
- Energia recebida: aproximadamente 42% da radiação recebida pela Terra;
- Temperatura de equilíbrio: 226 ± 4 kelvin, cerca de −47 °C;
- Distância do Sistema Solar: 14,96 parsecs, aproximadamente 49 anos-luz;
- Estrela hospedeira: anã vermelha do tipo M;
- Idade mínima estimada do sistema: superior a aproximadamente 3 bilhões de anos;
- Descoberta do planeta: anunciada em 2017;
- Localização aparente: direção da constelação de Cetus.
Os principais parâmetros orbitais e físicos também podem ser consultados no catálogo de exoplanetas da NASA dedicado ao LHS 1140 b. O anúncio original da descoberta, publicado em 2017, está disponível no Observatório Europeu do Sul.
Por isso, dizer que o planeta possui “seis vezes a massa da Terra” é uma aproximação aceitável em uma chamada jornalística. O valor científico adotado atualmente é de cerca de 5,6 massas terrestres.
O termo super-Terra também precisa ser entendido corretamente. Ele descreve principalmente uma categoria de tamanho ou massa. Não significa uma Terra melhor, mais fértil ou necessariamente habitável.
O LHS 1140 b é realmente um planeta rochoso?
Essa é uma das questões que exigem mais cuidado.
O estudo de 2026 chama o LHS 1140 b de exoplaneta rochoso e afirma que sua massa e seu raio são compatíveis com uma composição global semelhante à de um mundo rochoso, acrescida de um componente de baixa densidade, como uma atmosfera ou uma abundância elevada de água.
Entretanto, uma análise detalhada publicada em 2024 concluiu que o planeta provavelmente não é apenas uma versão ampliada da Terra, formada exclusivamente por ferro e silicatos.
Com massa de 5,6 Terras e raio 1,73 vez maior, sua densidade média fica abaixo do valor previsto para um planeta com composição interna estritamente terrestre.
Os pesquisadores propuseram dois cenários principais:
- uma pequena mini-Netuno com um envoltório de hidrogênio e hélio correspondente a cerca de 0,1% da massa do planeta;
- um mundo rico em água, com uma fração de água estimada entre 9% e 19% da massa total.
Essa faixa depende dos modelos adotados para o interior, da composição atmosférica e da proporção de elementos como ferro e magnésio. Os cálculos podem ser consultados no estudo New Mass and Radius Constraints on the LHS 1140 Planets.
Observações realizadas com o Telescópio Espacial James Webb posteriormente enfraqueceram a hipótese de uma atmosfera extensa dominada por hidrogênio. Os dados não apresentaram as fortes assinaturas que seriam esperadas em diferentes modelos de atmosferas ricas nesse gás.
A formulação mais rigorosa, portanto, é considerar o LHS 1140 b um mundo maior que a Terra, com interior provavelmente rico em materiais rochosos e um componente adicional de baixa densidade ainda não totalmente compreendido.
A atmosfera do LHS 1140 b é feita de hélio?
Os dados indicam que a alta atmosfera é pobre em hidrogênio e provavelmente dominada por hélio. Isso não significa que toda a atmosfera, desde a superfície até suas regiões mais externas, seja composta principalmente por esse elemento.
Uma atmosfera pode apresentar composições diferentes conforme a altitude.
Na própria Terra, as proporções dos gases mudam nas regiões extremamente altas. A composição encontrada perto do espaço não representa exatamente o ar existente ao nível do mar.
Os modelos aplicados ao LHS 1140 b indicaram uma proporção aproximada de apenas um átomo de hidrogênio para cada mil átomos de hélio no fluxo observado.
Esse resultado é compatível com um processo chamado fracionamento atmosférico. Durante a evolução do planeta, os elementos mais leves podem escapar com maior facilidade. O hidrogênio teria sido removido mais eficientemente, deixando uma região superior proporcionalmente mais rica em hélio.
O fluxo observado também parece fraco demais para arrastar grandes quantidades de elementos mais pesados.
Os cálculos indicam que, nas condições estimadas, espécies com massa igual ou superior a nove unidades de massa atômica tenderiam a permanecer nas camadas inferiores. Oxigênio, carbono e nitrogênio, por exemplo, são mais pesados que esse limite.
Isso abre a possibilidade de uma atmosfera inferior enriquecida em elementos pesados, mas essa composição ainda não foi medida diretamente.
Não é possível afirmar, neste momento, que o planeta possua uma atmosfera semelhante à terrestre ou dominada por nitrogênio, dióxido de carbono, oxigênio ou vapor de água.
Quanto gás o planeta está perdendo?
Os pesquisadores utilizaram modelos de escape atmosférico para estimar as propriedades do fluxo de hélio.
Dependendo do modelo adotado para o espectro de radiação da estrela, a taxa calculada ficou entre aproximadamente:
- 203 milhões de gramas por segundo;
- 422 milhões de gramas por segundo.
Isso corresponde a algo entre 200 e 420 toneladas de material por segundo.
A temperatura estimada do vento atmosférico ficou entre cerca de 5.160 e 5.850 kelvin. Essas temperaturas não representam a superfície do planeta. Elas se referem ao gás extremamente rarefeito e energizado nas camadas mais altas da atmosfera.
Apesar de parecer uma taxa enorme, ela não permite concluir que o planeta perderá sua atmosfera em pouco tempo. Para isso, seria necessário conhecer a massa total da atmosfera e como a atividade da estrela variou ao longo de bilhões de anos.
Os autores estimam que a taxa média necessária para remover completamente uma atmosfera inicial equivalente a 1,5% da massa do planeta seria superior a cinco bilhões de gramas por segundo — muito acima do valor observado atualmente.
Como a estrela provavelmente emitia mais radiação de alta energia durante sua juventude, o escape deve ter sido mais intenso no passado. Ainda assim, os modelos indicam que o planeta conseguiu conservar parte de sua atmosfera durante bilhões de anos.
Por que o hélio apareceu em 2024, mas não em 2025?
A equipe voltou a observar o LHS 1140 b em 2025, utilizando o mesmo instrumento. Desta vez, não encontrou absorção de hélio acima do limite de detecção.
Essa diferença não invalida automaticamente a observação anterior.
Os dados das duas campanhas foram processados novamente com uma ferramenta independente. O segundo processamento também identificou o sinal em 2024 e não o encontrou em 2025.
A explicação considerada mais provável é que o escape atmosférico varie com o tempo.
Entre os fatores que podem produzir essa variação estão:
- mudanças na emissão de raios X e ultravioleta da estrela;
- ciclos de atividade magnética;
- alterações na temperatura da alta atmosfera;
- mudanças na intensidade ou direção do vento estelar;
- variações na forma da cauda de gás;
- interações entre os campos magnéticos da estrela e do planeta.
A sensibilidade das observações de 2025 permitiria detectar apenas absorções superiores a aproximadamente 0,6%. Modelos com escape mais fraco produzem sinais abaixo desse limite.
Assim, o planeta pode ter continuado a perder hélio em 2025, mas em quantidade pequena demais para ser medida naquela observação.
São necessários novos trânsitos para descobrir se essa mudança é irregular, sazonal ou ligada a algum ciclo de atividade da estrela.
Por que essa é considerada uma descoberta inédita
Atmosferas já foram detectadas ao redor de muitos exoplanetas. A maioria dessas observações, porém, envolve mundos grandes, quentes ou ricos em gás, como os chamados Júpiteres quentes e sub-Netunos.
Esses planetas possuem atmosferas extensas, que bloqueiam uma parcela maior da luz estelar e geram sinais mais fáceis de medir.
Planetas menores e mais frios produzem assinaturas muito discretas. Além disso, mundos que orbitam estrelas anãs vermelhas ficam expostos a radiação capaz de remover suas atmosferas.
O Center for Astrophysics | Harvard & Smithsonian, instituição vinculada aos autores, apresentou o resultado como a primeira demonstração clara de uma atmosfera ao redor de um planeta rochoso situado na zona habitável de outra estrela. O pesquisador principal Collin Cherubim descreveu a observação como a primeira detecção desse tipo.
Para preservar o rigor, essa afirmação deve ser atribuída aos responsáveis pelo estudo, pois a classificação de “primeira” depende dos critérios adotados para definir planeta rochoso, zona habitável e confirmação atmosférica.
A descoberta é inédita especialmente porque o sinal vem de um planeta relativamente pequeno, temperado e sujeito aos efeitos de uma anã vermelha — exatamente a categoria na qual a sobrevivência de atmosferas permanece uma grande questão científica.
O que significa estar na zona habitável de uma estrela
O LHS 1140 b orbita na chamada zona habitável de sua estrela.
Essa é a faixa de distância na qual a energia recebida pode permitir água líquida na superfície, desde que o planeta possua atmosfera, pressão e composição adequadas.
Zona habitável não significa planeta habitado.
Também não significa automaticamente clima agradável, oceanos ou condições semelhantes às da Terra.
Vênus e Marte mostram como planetas em regiões próximas à zona habitável podem seguir caminhos muito diferentes. Vênus desenvolveu uma atmosfera extremamente espessa e quente. Marte perdeu grande parte de sua atmosfera e tornou-se frio e seco.
O LHS 1140 b recebe aproximadamente 42% da energia que a Terra recebe do Sol. Sua temperatura de equilíbrio é estimada em cerca de −47 °C, cálculo que não inclui o efeito de uma atmosfera.
Dependendo da pressão e dos gases existentes, o efeito estufa poderia elevar a temperatura de determinadas regiões. Sem conhecer esses fatores, não é possível saber se existe água líquida atualmente.
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O planeta pode ter oceanos?
A hipótese de um mundo rico em água surgiu principalmente das medições de massa e raio.
Modelos de estrutura interna sugerem que entre 9% e 19% da massa do planeta poderia ser composta por água. Para comparação, a água representa apenas uma pequena fração da massa total da Terra.
Isso não significa necessariamente um oceano semelhante ao Atlântico ou ao Pacífico.
Sob pressões muito altas, parte da água poderia assumir formas de gelo que não existem naturalmente na superfície terrestre. Também pode haver uma espessa camada congelada sobre regiões líquidas.
É provável que o LHS 1140 b esteja em rotação sincronizada, mantendo aproximadamente o mesmo lado voltado para sua estrela. Modelos climáticos tridimensionais indicaram que, em determinados cenários atmosféricos, poderia existir água líquida perto do ponto subestelar — a região que recebe iluminação constante.
Esse cenário produziria um mundo predominantemente congelado com uma região líquida no lado iluminado, aparência que levou à comparação informal com um “planeta globo ocular”.
Essa imagem é resultado de simulações. Nenhum oceano foi observado diretamente.
O que o James Webb já revelou
Antes da nova detecção de hélio, o James Webb já havia observado o LHS 1140 b com os instrumentos NIRISS e NIRSpec.
As análises rejeitaram diferentes modelos de atmosferas extensas ricas em hidrogênio. Em uma das pesquisas, esses cenários foram considerados incompatíveis com os dados em mais de dez desvios-padrão. Os resultados estão descritos no estudo Transmission Spectroscopy of the Habitable Zone Exoplanet LHS 1140 b with JWST/NIRISS.
Os dados do NIRISS também apresentaram uma evidência preliminar, com significância de 2,3 sigma, compatível com o espalhamento de luz em uma possível atmosfera dominada por nitrogênio.
Esse nível não é suficiente para uma confirmação.
O mesmo estudo concluiu que o planeta poderia ser desprovido de ar ou, mais provavelmente, possuir uma atmosfera formada por moléculas mais pesadas. Os autores classificaram o sinal de nitrogênio como tentativo e recomendaram novas observações.
Outra análise com o NIRSpec também considerou os dados incompatíveis com atmosferas ricas em hidrogênio e favoreceu, com confiança moderada, uma atmosfera de alta massa molecular. O estudo indicou que nitrogênio, dióxido de carbono e vapor de água são possibilidades a investigar, e não componentes já confirmados. A pesquisa pode ser consultada em LHS 1140 b is a potentially habitable water world.
A nova detecção de hélio complementa essas pesquisas porque mostra que existe material atmosférico nas regiões superiores. Ela não determina, sozinha, quais gases dominam as camadas inferiores.
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Dois planetas e a “linha costeira cósmica”
O sistema LHS 1140 oferece uma comparação especialmente valiosa porque contém dois planetas com características diferentes orbitando a mesma estrela.
O LHS 1140 b:
- tem aproximadamente 5,6 massas terrestres;
- completa uma órbita em 24,7 dias;
- recebe cerca de 42% da energia recebida pela Terra;
- apresentou hélio escapando em 2024.
O LHS 1140 c:
- tem aproximadamente 1,91 massa terrestre;
- completa uma órbita em 3,78 dias;
- recebe cerca de cinco vezes a energia recebida pela Terra;
- não apresentou absorção de hélio na mesma noite.
Os dados básicos do planeta vizinho também estão disponíveis na página do LHS 1140 c no catálogo de exoplanetas da NASA.
Os pesquisadores relacionaram essa diferença ao conceito de linha costeira cósmica.
Trata-se de uma fronteira teórica entre planetas que conseguem conservar atmosferas durante bilhões de anos e mundos que perdem seus gases por serem muito quentes, pouco massivos ou fortemente irradiados.
O LHS 1140 b, maior e mais frio, aparece do lado da fronteira associado à retenção atmosférica. O planeta c, menor e muito mais irradiado, encontra-se do lado em que mundos sem atmosferas são mais prováveis.
Observações anteriores da emissão térmica do LHS 1140 c já indicavam que ele possui pouca ou nenhuma atmosfera. A ausência de hélio é compatível com esse cenário, embora uma não detecção isolada não seja prova absoluta de ausência atmosférica.
O sistema funciona, portanto, como um laboratório natural: dois planetas formados ao redor da mesma estrela, mas submetidos a condições capazes de produzir evoluções atmosféricas diferentes.
O que está confirmado, o que é provável e o que permanece desconhecido
Confirmado pelas observações
- O LHS 1140 b transita diante de uma anã vermelha.
- O planeta tem aproximadamente 5,6 massas terrestres e 1,73 vez o raio da Terra.
- Ele recebe cerca de 42% da energia que a Terra recebe do Sol.
- Hélio metaestável foi detectado durante o trânsito observado em 2024.
- O sinal acompanha o movimento do planeta.
- O hélio não foi detectado acima do limite instrumental em 2025.
- Nenhum sinal equivalente foi encontrado no LHS 1140 c.
- Atmosferas extensas dominadas por hidrogênio são incompatíveis com as observações do James Webb.
Interpretações sustentadas por modelos
- O hélio está escapando por causa da radiação de alta energia da estrela.
- A alta atmosfera é provavelmente rica em hélio e pobre em hidrogênio.
- Elementos mais pesados podem estar preservados nas camadas inferiores.
- A intensidade do escape atmosférico varia com o tempo.
- O planeta conseguiu conservar uma atmosfera durante bilhões de anos.
- Sua densidade pode ser explicada por uma grande quantidade de água ou por uma estrutura atmosférica ainda não totalmente definida.
Hipóteses ainda não confirmadas
- Atmosfera inferior dominada por nitrogênio;
- presença abundante de dióxido de carbono;
- vapor de água detectável;
- oceano líquido no lado iluminado;
- superfície majoritariamente coberta por gelo;
- campo magnético protetor;
- condições estáveis para a vida;
- bioassinaturas.
O que não foi encontrado
- Vida extraterrestre;
- organismos;
- vegetação;
- oxigênio respirável;
- uma atmosfera igual à terrestre;
- oceanos observados diretamente;
- sinais de civilização;
- condições adequadas para seres humanos.
A tecnologia por trás da descoberta
A observação mostra que a investigação de exoplanetas habitáveis não depende apenas de telescópios espaciais.
O WINERED é um espectrógrafo de alta resolução voltado para o infravermelho próximo. Instalado no telescópio Magellan Clay, ele consegue separar a luz da estrela em faixas extremamente estreitas e identificar alterações produzidas por gases.
O James Webb observa uma grande variedade de comprimentos de onda e pode procurar moléculas nas camadas mais profundas. O WINERED, por outro lado, foi capaz de isolar as linhas estreitas do hélio em fuga.
Essas abordagens são complementares.
Telescópios terrestres podem localizar atmosferas por meio de gases que se estendem para o espaço. Observatórios espaciais podem investigar assinaturas moleculares mais discretas. Futuras instalações, como telescópios gigantes em solo, deverão ampliar ainda mais essa capacidade.
A descoberta também mostra a importância da análise computacional. Os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos, processos gaussianos, cadeias de Markov e simulações de escape atmosférico para separar o sinal planetário do ruído instrumental, da atmosfera terrestre e da própria estrela.
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Por que ainda será difícil procurar vida
Detectar uma atmosfera não é o mesmo que detectar uma bioassinatura.
Os sinais produzidos por moléculas em atmosferas de planetas pequenos são extremamente fracos. Nuvens, névoas, atividade da estrela e diferentes gases podem produzir efeitos parecidos ou esconder completamente determinadas assinaturas.
Uma análise divulgada pela NASA sobre a investigação de mundos potencialmente habitáveis estimou que seriam necessários aproximadamente 10 a 50 trânsitos do LHS 1140 b — equivalentes a algo entre 40 e 200 horas de observação com o James Webb — para tentar detectar possíveis bioassinaturas em um cenário ideal de atmosfera clara e sem nuvens.
Como o Webb não consegue observar o sistema durante todo o ano, reunir dezenas de trânsitos pode levar vários anos.
Mesmo que moléculas associadas à atividade biológica sejam encontradas, seria necessário descartar origens geológicas, químicas e fotoquímicas. Uma única molécula nunca seria suficiente para anunciar vida.
Quais serão os próximos passos
As próximas observações deverão investigar três questões principais.
A primeira é a variabilidade do hélio. Novos trânsitos podem revelar se o sinal aparece de forma irregular, se acompanha ciclos da estrela ou se depende da geometria do fluxo de gás.
A segunda é a composição da atmosfera inferior. Telescópios procurarão assinaturas de moléculas como:
- dióxido de carbono;
- nitrogênio por efeitos indiretos;
- vapor de água;
- monóxido de carbono;
- metano;
- oxigênio e ozônio, com extrema cautela na interpretação.
A terceira é a natureza física do planeta. Será necessário descobrir se o LHS 1140 b é um mundo rico em água, um planeta predominantemente rochoso com atmosfera espessa ou uma configuração intermediária que não possui equivalente próximo no Sistema Solar.
Cada nova observação ajudará a reduzir o número de cenários possíveis.
Um planeta promissor, mas não uma segunda Terra
O exoplaneta LHS 1140 b é um dos alvos mais promissores da astronomia atual não porque já sabemos que ele é habitável, mas porque finalmente começamos a observar sua história atmosférica.
Ele possui quase seis vezes a massa da Terra, pode conter uma grande quantidade de água e orbita na zona habitável de uma estrela anã vermelha. Agora sabemos também que existe hélio escapando de suas regiões superiores.
Essas características tornam o planeta cientificamente valioso, mas não o transformam em uma cópia da Terra.
Seu ano dura menos de 25 dias. É provável que um dos lados permaneça voltado para a estrela. Sua gravidade é mais intensa, sua composição interna não está totalmente definida e sua atmosfera profunda continua desconhecida.
A descoberta não encerra a investigação. Ela muda a pergunta.
Antes, os astrônomos queriam saber se o LHS 1140 b possuía alguma atmosfera. Agora, podem começar a perguntar qual é sua composição, como ela evoluiu, se existe água líquida e quais condições físicas permanecem escondidas abaixo da camada de hélio.
O planeta ainda é um mistério. Mas deixou de ser apenas uma sombra passando diante de uma estrela.
Perguntas frequentes
O LHS 1140 b tem uma atmosfera confirmada?
Sim. A detecção de hélio escapando durante o trânsito de 2024 fornece uma evidência clara de material atmosférico. A composição completa das camadas inferiores, entretanto, ainda não foi determinada.
Existe vida no exoplaneta LHS 1140 b?
Não há nenhuma evidência de vida. O planeta está na zona habitável e conserva uma atmosfera, mas ainda não foram confirmados oceanos, bioassinaturas ou condições ambientais adequadas a organismos.
O LHS 1140 b é um planeta rochoso ou um mundo oceânico?
Seu interior provavelmente contém uma grande fração de materiais rochosos, mas sua densidade exige um componente adicional de baixa densidade. Estudos sugerem uma possível fração de água entre 9% e 19%, embora a estrutura exata do planeta permaneça em investigação.

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