O preço da memória RAM está subindo rapidamente — e a inteligência artificial virou a principal responsável por essa disputa silenciosa por chips.
Quem tentou montar ou atualizar um computador recentemente percebeu: a memória RAM ficou mais cara — e rápido. O que parecia apenas mais uma oscilação do mercado esconde algo maior. Pela primeira vez, a inteligência artificial entrou no centro da disputa por chips que antes abasteciam PCs, celulares e servidores comuns.
O resultado? Escassez, preços em alta e uma pergunta que não quer calar: isso vai passar ou estamos entrando numa nova era de hardware caro?
O que está por trás da alta no preço da memória RAM
Durante anos, o mercado de memória viveu ciclos previsíveis. Produção em excesso derrubava preços; ajustes devolviam o equilíbrio. O boom da inteligência artificial rompeu esse padrão.
Modelos de IA exigem volumes gigantescos de memória RAM e flash para treinamento e inferência. Cada novo sistema mais avançado consome o equivalente ao que antes abastecia milhares de computadores pessoais.
Fabricantes de chips, diante disso, fizeram uma escolha lógica: priorizar contratos mais lucrativos com empresas de IA e data centers. O consumidor comum ficou no fim da fila.
A IA mudou quem “merece” receber memória primeiro
Aqui está um ponto pouco discutido. O problema não é apenas fabricar menos memória — é para quem ela está sendo fabricada.
Hoje, grandes quantidades de RAM são destinadas a:
- servidores de treinamento de modelos de linguagem;
- infraestrutura de nuvem voltada a IA;
- aceleradores e sistemas especializados.
Isso cria um gargalo estrutural. Mesmo que a produção aumente, a demanda da IA cresce mais rápido. Não é uma escassez acidental; é uma realocação estratégica.
Por que os PCs voltaram a vender mais em 2025
Um detalhe importante ajuda a explicar o impacto: as remessas globais de PCs cresceram em 2025. Depois de anos de estagnação, empresas e consumidores voltaram a trocar máquinas.
Isso acontece por vários motivos:
- fim do ciclo de computadores comprados durante a pandemia;
- exigências maiores de software;
- popularização de aplicações que exigem mais memória.
Ou seja, a demanda tradicional voltou ao mesmo tempo em que a IA passou a competir pelos mesmos chips.
Flash e RAM: dois mercados pressionados ao mesmo tempo
Não é só a memória RAM que sofre. A memória flash — usada em SSDs, celulares e dispositivos móveis — enfrenta pressão semelhante.
Centros de dados precisam de armazenamento rápido e confiável para IA. Isso reduz a oferta para produtos de consumo, elevando custos em cadeia: notebooks, smartphones e até consoles sentem o impacto.
O erro comum é tratar isso como dois problemas separados. Não são. RAM e flash fazem parte do mesmo ecossistema industrial.
Essa escassez vai durar além de 2026?
Essa é a pergunta central — e a resposta honesta é desconfortável.
Tudo indica que sim, a pressão deve continuar além de 2026. Não porque os fabricantes não saibam produzir mais, mas porque:
- novas fábricas levam anos para entrar em operação;
- a demanda por IA cresce de forma exponencial;
- contratos corporativos de longo prazo travam parte da produção.
Mesmo projeções otimistas não apontam retorno rápido aos preços baixos do passado.
Por que “IA está devorando tudo” não é exagero
Quando se diz que a IA está devorando a memória disponível, não é força de expressão. Cada avanço nos modelos exige mais:
- parâmetros;
- contexto;
- dados simultâneos.
Isso se traduz diretamente em consumo de RAM. Não é um pico temporário, mas uma mudança estrutural no uso da tecnologia.
O hardware deixou de ser apenas suporte. Ele virou o campo de batalha.
O que isso significa para quem compra tecnologia
Para o consumidor comum, o impacto é claro:
- upgrades ficam mais caros;
- configurações básicas envelhecem mais rápido;
- escolher bem a quantidade de RAM virou decisão estratégica.
Para empresas, o efeito é ainda maior: projetos de digitalização e modernização custam mais do que o previsto.
Ignorar essa tendência é planejar com base em um mercado que já não existe.
Resposta direta: por que a memória RAM ficou tão cara?
Porque a inteligência artificial mudou completamente a lógica do mercado de chips. A mesma memória que abastecia PCs agora sustenta sistemas globais de IA. A produção não acompanha essa nova prioridade, e os preços refletem essa disputa silenciosa.
Não é crise pontual. É transição tecnológica.
Conclusão: o novo normal do hardware
A alta no preço da memória RAM não é um acidente de percurso. É um sinal de que entramos em uma fase onde software avançado depende, mais do que nunca, de hardware escasso.
A pergunta não é se os preços vão cair rapidamente. A pergunta real é: estamos preparados para um mundo onde memória deixou de ser abundante?
Porque, ao que tudo indica, a IA não vai parar de comer tão cedo.

Eduardo Barros é editor-chefe do Tecmaker, Pós-Graduado em Cultura Maker e Mestre em Tecnologias Educacionais. Com experiência de mais de 10 anos no setor, sua análise foca em desmistificar inovações e fornecer avaliações técnicas e projetos práticos com base na credibilidade acadêmica.










