Geração Z e o fenômeno Therian: identidade digital e escola

Grupo de adolescentes usando máscaras de animais reunidos em parque, representando fenômeno Therian e identidade digital juvenil

A cada novo “microfenômeno” do TikTok, a internet reage como se fosse o fim do mundo — ou como se tudo fosse apenas brincadeira. Therians virou um desses temas que dividem opiniões: tem gente que trata como “fantasia”, outros enxergam como autodescoberta, e muitos adolescentes só querem pertencer sem ser ridicularizados. No meio disso, a escola costuma chegar atrasada: tenta “proibir”, “controlar” ou “tirar sarro” — e aí perde a chance de fazer o que deveria: entender, orientar e proteger.

O ponto não é “concordar” com tudo. O ponto é: quando um comportamento vira identidade pública na internet, ele passa a mexer com reputação, bullying, saúde emocional, clima escolar e gestão de conflitos. E aí vira assunto de educação digital — quer a gente goste ou não.

O que são Therians (e por que isso explodiu agora)

De forma bem direta: therians são pessoas que descrevem uma identificação profunda, interna com um animal — não no sentido biológico, mas como experiência subjetiva (psicológica/emocional/espiritual, dependendo do relato). Em reportagens recentes, o fenômeno aparece com jovens buscando visibilidade e pertencimento, muitas vezes organizando encontros para se reconhecerem como grupo. 

O TikTok acelera esse tipo de coisa porque ele não “recompensa” o que é só correto — ele recompensa o que prende: narrativa curta, estética marcante, repetição de símbolos, e um “nós contra eles” implícito. Quando isso encontra uma adolescência já pressionada por performance social, a mistura vira combustível.

O que Therians NÃO são (pra reduzir ruído)

  1. Não é “virar animal de verdade”.
  2. Automaticamente, Não é “doença”.
  3. Não é automaticamente “moda boba”.
  4. Não é automaticamente “algo perigoso”.

É um fenômeno cultural (e às vezes identitário) que precisa ser lido com maturidade.

Therians no TikTok: tendências e por que viralizaram

O erro aqui é tratar como “um monte de vídeos estranhos”. Viraliza porque tem três ingredientes perfeitos para a lógica do TikTok:

1) Visual reconhecível em 1 segundo.

Movimento corporal, acessórios, máscaras, gestos, símbolos. O cérebro entende rápido: “é disso que se trata”.

2) Roteiro emocional curto.

“Eu sempre me senti diferente.” “Aqui eu pertenço.” “Na escola me zoam.” Esse tipo de narrativa é uma máquina de engajamento.

3) Comunidade com linguagem própria.

Quando um grupo cria termos e rituais, ele vira “clube”. E “clube” é o formato mais eficiente de retenção.

E a parte que muita gente não quer encarar: quanto mais o adulto reage com deboche, mais o jovem gruda no grupo — porque o grupo vira abrigo contra o julgamento.

🧠 “Não é fantasia”: como muitos jovens descrevem ser Therian

Em relatos comuns nas redes, alguns adolescentes dizem que a experiência é uma identificação interna — um jeito de nomear sensações de pertencimento, proteção emocional e autoimagem. Isso não obriga ninguém a “concordar”, mas obriga adultos a não reduzir tudo a deboche, porque deboche vira gatilho para conflito, isolamento e caça social.

O que costuma aparecer nos relatos:
  • “Eu me sinto mais eu mesmo(a) assim.”
  • “Quando eu encontro outros, eu paro de me achar ‘defeituoso(a)’.”
  • “Na internet eu posso existir sem ser humilhado(a).”
⚠️ Onde adultos erram feio:

Tratar como “palhaçada” pode virar gasolina para bullying. Tratar como “crime” pode virar perseguição. O caminho inteligente é mediação: proteger o estudante, impor limites de convivência e orientar uso saudável de redes.

🔗 Leituras para conectar com educação digital:
• Educação digital e ansiedade estudantil
• Interações entre adolescentes e o ChatGPT

O papel do algoritmo na ampliação do movimento Therian 

“Puxão” do algoritmoO que ele favoreceO efeito no fenômeno
RetençãoVídeos curtos com suspense emocionalAumenta o “maratona” de conteúdo
RepetiçãoSímbolos, gestos, estética reconhecívelCria identidade de grupo rápida
PolarizaçãoReações fortes (amor/ódio)Faz o tema crescer por conflito
TribosConteúdo “pra quem é do grupo”Fortalece pertencimento e fideliza

Escola despreparada: bullying, conflito e gestão educacional (com CTA interno)

A escola costuma errar por dois extremos: ou ignora (“isso é bobagem”), ou criminaliza (“isso é proibido”). Nenhum dos dois resolve. Ignorar deixa o estudante sozinho. Criminalizar vira palco de “caça” social e aumenta o prazer do agressor.

O que funciona é uma lógica simples: o que está em jogo não é o tema — é a convivência. A escola não precisa “validar identidades” para proteger estudantes. Precisa garantir três coisas: (1) ninguém pode ser humilhado; (2) regras valem para todos; (3) suporte existe sem exposição.

🔗 Trilha TecMaker

💗 Pertencimento digital: estamos vivendo uma nova fase da construção do “eu”?

Para muitos adolescentes, a internet virou um lugar onde o “eu” pode ser testado: estética, linguagem, identidade, grupo. Isso pode ser saudável (exploração + comunidade), mas também pode virar prisão (comparação, exposição, medo de exclusão).

Três sinais de alerta que a escola e a família não deveriam ignorar:
  • Vida social totalmente substituída por validação online
  • Medo constante de “ser exposto(a)” ou ridicularizado(a)
  • Conflitos recorrentes na escola por causa de conteúdo de rede

🔗 Para aprofundar com base em recomendações públicas:
Advisory do U.S. Surgeon General sobre redes sociais e adolescentes

🔗 E conecte com seus conteúdos TecMaker:
• Educação digital e ansiedade
• O impacto da tecnologia na educação

O estigma e a “caça” nas escolas (desenvolvido, sem tópicos)

Quando um tema vira “meme”, a escola vira palco. E “caça” não começa com agressão física — começa com riso, apelido, vídeo escondido, exposição em grupo de mensagem. A humilhação hoje é multiplataforma: o aluno sofre no recreio e, à noite, sofre de novo no feed.

O que agrava é o efeito plateia: quando a escola não age rápido, o agressor aprende que compensa. Aí o fenômeno cresce porque o ataque vira entretenimento. Se você quer ser realmente estratégica (e não só “fofa”), a tese é: o adulto precisa matar o show. Não dando sermão genérico — mas aplicando regra clara de convivência e consequência consistente.

E aqui vai um ponto cego comum: tentar “explicar therians” para a turma inteira pode piorar, se virar palestra mal feita. O que funciona melhor é procedimento institucional (anti-humilhação + proteção + mediação), não exposição do estudante.

O papel da Geração Z nesse cenário

A Geração Z não inventou a busca por identidade; ela só vive isso sob holofotes. O que antes era “fase” com diário e amigos próximos, agora vira “fase” com comentários, duelos, fandoms e hate.

E aqui está a oportunidade que muita escola perde: a Geração Z é extremamente sensível a incoerência institucional. Se a escola diz que é “acolhedora”, mas permite humilhação, o aluno não confia. Se a escola diz que “proíbe celular”, mas não ensina cidadania digital, vira só repressão. Se a escola diz que “se preocupa com saúde emocional”, mas trata tudo como “drama”, ela perde autoridade moral.

A pergunta real não é “therians são isso ou aquilo”. A pergunta é: o que a escola está ensinando sobre convivência, respeito e uso do digital quando aparece um tema-limite?

🍃 Reflexão prática para educadores: como agir sem virar “caçador” e sem virar “omisso”

  1. Separe identidade de comportamento: a escola não regula “quem o aluno é”, ela regula convivência.
  2. Proteja sem expor: intervenha com discrição; não transforme o aluno em “tema da aula”.
  3. Nomeie a regra: humilhação e filmagem sem consentimento têm consequência — sempre.
  4. Crie canal seguro: um adulto de referência + registro + acompanhamento.
  5. Eduque para o digital: conflito de rede vira conflito real — e precisa de letramento, não só punição.

• Interações entre adolescentes e o ChatGPT
• Restrição de acesso e cultura digital

Conexão com o universo dos animais reais

🐾 Da estética ao cuidado: o que “amar animais” significa no mundo real

Se a cultura digital cria símbolos e identidades, a vida real cobra atitudes: abrigo, segurança, enriquecimento ambiental e responsabilidade. É aqui que muita conversa “viral” precisa amadurecer.

💛 Quer levar esse afeto para uma prática que melhora a vida de gatos reais?
• Ambiente cat-friendly: o lar perfeito
• Gatos através do tempo

Estamos preparados para essa conversa? 

A discussão sobre therians é um ótimo teste de maturidade social. Quem só quer lacrar vai chamar de “doença” ou de “modinha” e pronto. Quem quer educar de verdade vai fazer perguntas melhores:

Como a tecnologia está moldando pertencimento, autoestima e conflito?

Por que adolescentes estão buscando refúgio em identidades de nicho?

O que a escola está fazendo quando a diferença vira alvo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados