A cada novo “microfenômeno” do TikTok, a internet reage como se fosse o fim do mundo — ou como se tudo fosse apenas brincadeira. Therians virou um desses temas que dividem opiniões: tem gente que trata como “fantasia”, outros enxergam como autodescoberta, e muitos adolescentes só querem pertencer sem ser ridicularizados. No meio disso, a escola costuma chegar atrasada: tenta “proibir”, “controlar” ou “tirar sarro” — e aí perde a chance de fazer o que deveria: entender, orientar e proteger.
O ponto não é “concordar” com tudo. O ponto é: quando um comportamento vira identidade pública na internet, ele passa a mexer com reputação, bullying, saúde emocional, clima escolar e gestão de conflitos. E aí vira assunto de educação digital — quer a gente goste ou não.
O que são Therians (e por que isso explodiu agora)
De forma bem direta: therians são pessoas que descrevem uma identificação profunda, interna com um animal — não no sentido biológico, mas como experiência subjetiva (psicológica/emocional/espiritual, dependendo do relato). Em reportagens recentes, o fenômeno aparece com jovens buscando visibilidade e pertencimento, muitas vezes organizando encontros para se reconhecerem como grupo.
O TikTok acelera esse tipo de coisa porque ele não “recompensa” o que é só correto — ele recompensa o que prende: narrativa curta, estética marcante, repetição de símbolos, e um “nós contra eles” implícito. Quando isso encontra uma adolescência já pressionada por performance social, a mistura vira combustível.
O que Therians NÃO são (pra reduzir ruído)
- Não é “virar animal de verdade”.
- Automaticamente, Não é “doença”.
- Não é automaticamente “moda boba”.
- Não é automaticamente “algo perigoso”.
É um fenômeno cultural (e às vezes identitário) que precisa ser lido com maturidade.
Therians no TikTok: tendências e por que viralizaram
O erro aqui é tratar como “um monte de vídeos estranhos”. Viraliza porque tem três ingredientes perfeitos para a lógica do TikTok:
1) Visual reconhecível em 1 segundo.
Movimento corporal, acessórios, máscaras, gestos, símbolos. O cérebro entende rápido: “é disso que se trata”.
2) Roteiro emocional curto.
“Eu sempre me senti diferente.” “Aqui eu pertenço.” “Na escola me zoam.” Esse tipo de narrativa é uma máquina de engajamento.
3) Comunidade com linguagem própria.
Quando um grupo cria termos e rituais, ele vira “clube”. E “clube” é o formato mais eficiente de retenção.
E a parte que muita gente não quer encarar: quanto mais o adulto reage com deboche, mais o jovem gruda no grupo — porque o grupo vira abrigo contra o julgamento.
🧠 “Não é fantasia”: como muitos jovens descrevem ser Therian
Em relatos comuns nas redes, alguns adolescentes dizem que a experiência é uma identificação interna — um jeito de nomear sensações de pertencimento, proteção emocional e autoimagem. Isso não obriga ninguém a “concordar”, mas obriga adultos a não reduzir tudo a deboche, porque deboche vira gatilho para conflito, isolamento e caça social.
- “Eu me sinto mais eu mesmo(a) assim.”
- “Quando eu encontro outros, eu paro de me achar ‘defeituoso(a)’.”
- “Na internet eu posso existir sem ser humilhado(a).”
Tratar como “palhaçada” pode virar gasolina para bullying. Tratar como “crime” pode virar perseguição. O caminho inteligente é mediação: proteger o estudante, impor limites de convivência e orientar uso saudável de redes.
🔗 Leituras para conectar com educação digital:
• Educação digital e ansiedade estudantil
• Interações entre adolescentes e o ChatGPT
O papel do algoritmo na ampliação do movimento Therian
| “Puxão” do algoritmo | O que ele favorece | O efeito no fenômeno |
|---|---|---|
| Retenção | Vídeos curtos com suspense emocional | Aumenta o “maratona” de conteúdo |
| Repetição | Símbolos, gestos, estética reconhecível | Cria identidade de grupo rápida |
| Polarização | Reações fortes (amor/ódio) | Faz o tema crescer por conflito |
| Tribos | Conteúdo “pra quem é do grupo” | Fortalece pertencimento e fideliza |
Escola despreparada: bullying, conflito e gestão educacional (com CTA interno)
A escola costuma errar por dois extremos: ou ignora (“isso é bobagem”), ou criminaliza (“isso é proibido”). Nenhum dos dois resolve. Ignorar deixa o estudante sozinho. Criminalizar vira palco de “caça” social e aumenta o prazer do agressor.
O que funciona é uma lógica simples: o que está em jogo não é o tema — é a convivência. A escola não precisa “validar identidades” para proteger estudantes. Precisa garantir três coisas: (1) ninguém pode ser humilhado; (2) regras valem para todos; (3) suporte existe sem exposição.
🔗 Trilha TecMaker
- https://tecmaker.com.br/proibicao-de-celular-nas-escolas-no-brasil/
- https://tecmaker.com.br/celular-e-saude-mental-dos-adolescentes/
💗 Pertencimento digital: estamos vivendo uma nova fase da construção do “eu”?
Para muitos adolescentes, a internet virou um lugar onde o “eu” pode ser testado: estética, linguagem, identidade, grupo. Isso pode ser saudável (exploração + comunidade), mas também pode virar prisão (comparação, exposição, medo de exclusão).
- Vida social totalmente substituída por validação online
- Medo constante de “ser exposto(a)” ou ridicularizado(a)
- Conflitos recorrentes na escola por causa de conteúdo de rede
🔗 Para aprofundar com base em recomendações públicas:
• Advisory do U.S. Surgeon General sobre redes sociais e adolescentes
🔗 E conecte com seus conteúdos TecMaker:
• Educação digital e ansiedade
• O impacto da tecnologia na educação
O estigma e a “caça” nas escolas (desenvolvido, sem tópicos)
Quando um tema vira “meme”, a escola vira palco. E “caça” não começa com agressão física — começa com riso, apelido, vídeo escondido, exposição em grupo de mensagem. A humilhação hoje é multiplataforma: o aluno sofre no recreio e, à noite, sofre de novo no feed.
O que agrava é o efeito plateia: quando a escola não age rápido, o agressor aprende que compensa. Aí o fenômeno cresce porque o ataque vira entretenimento. Se você quer ser realmente estratégica (e não só “fofa”), a tese é: o adulto precisa matar o show. Não dando sermão genérico — mas aplicando regra clara de convivência e consequência consistente.
E aqui vai um ponto cego comum: tentar “explicar therians” para a turma inteira pode piorar, se virar palestra mal feita. O que funciona melhor é procedimento institucional (anti-humilhação + proteção + mediação), não exposição do estudante.
O papel da Geração Z nesse cenário
A Geração Z não inventou a busca por identidade; ela só vive isso sob holofotes. O que antes era “fase” com diário e amigos próximos, agora vira “fase” com comentários, duelos, fandoms e hate.
E aqui está a oportunidade que muita escola perde: a Geração Z é extremamente sensível a incoerência institucional. Se a escola diz que é “acolhedora”, mas permite humilhação, o aluno não confia. Se a escola diz que “proíbe celular”, mas não ensina cidadania digital, vira só repressão. Se a escola diz que “se preocupa com saúde emocional”, mas trata tudo como “drama”, ela perde autoridade moral.
A pergunta real não é “therians são isso ou aquilo”. A pergunta é: o que a escola está ensinando sobre convivência, respeito e uso do digital quando aparece um tema-limite?
🍃 Reflexão prática para educadores: como agir sem virar “caçador” e sem virar “omisso”
- Separe identidade de comportamento: a escola não regula “quem o aluno é”, ela regula convivência.
- Proteja sem expor: intervenha com discrição; não transforme o aluno em “tema da aula”.
- Nomeie a regra: humilhação e filmagem sem consentimento têm consequência — sempre.
- Crie canal seguro: um adulto de referência + registro + acompanhamento.
- Eduque para o digital: conflito de rede vira conflito real — e precisa de letramento, não só punição.
• Interações entre adolescentes e o ChatGPT
• Restrição de acesso e cultura digital
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Se a cultura digital cria símbolos e identidades, a vida real cobra atitudes: abrigo, segurança, enriquecimento ambiental e responsabilidade. É aqui que muita conversa “viral” precisa amadurecer.
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Estamos preparados para essa conversa?
A discussão sobre therians é um ótimo teste de maturidade social. Quem só quer lacrar vai chamar de “doença” ou de “modinha” e pronto. Quem quer educar de verdade vai fazer perguntas melhores:
Como a tecnologia está moldando pertencimento, autoestima e conflito?
Por que adolescentes estão buscando refúgio em identidades de nicho?
O que a escola está fazendo quando a diferença vira alvo?

Eduardo Barros é editor-chefe do Tecmaker, Pós-Graduado em Cultura Maker e Mestre em Tecnologias Educacionais. Com experiência de mais de 10 anos no setor, sua análise foca em desmistificar inovações e fornecer avaliações técnicas e projetos práticos com base na credibilidade acadêmica.










