Durante décadas, livros e discursos contaram a história da computação como uma sequência de gênios masculinos, máquinas colossais e saltos técnicos frios. Essa narrativa, porém, esconde um fato decisivo: a programação de computadores começou como trabalho feminino. Não por acaso, mas porque, no início, ninguém enxergava ali poder, prestígio ou futuro.
Antes de associar programação a inovação, altos salários e influência, a sociedade tratava essa atividade como trabalho de bastidores. Algo próximo de organizar dados, seguir instruções e operar máquinas projetadas por outros. Foi exatamente nesse espaço que as mulheres entraram — e, ao entrar, construíram as bases de toda a computação moderna.
Programar significava seguir instruções — e isso abriu espaço para mulheres
Nos anos 1940, computadores não exibiam telas, nem aceitavam cliques ou comandos simples. Funcionavam como máquinas gigantes, cheias de cabos, válvulas e painéis físicos. Para executar qualquer tarefa, alguém precisava traduzir problemas matemáticos em sequências rigorosas de instruções.
A sociedade enxergava esse trabalho como administrativo e repetitivo, não como criação intelectual. Muitos engenheiros valorizavam o projeto do hardware e viam a programação apenas como execução. Essa percepção levou as instituições a atribuir a tarefa às mulheres, consideradas, à época, mais cuidadosas, organizadas e pacientes.
Essa escolha produziu um efeito inesperado: as mulheres se tornaram as primeiras programadoras da história.
ENIAC: o primeiro grande computador, as primeiras programadoras
Em 1946, quando o ENIAC — considerado o primeiro computador eletrônico de uso geral — entrou em operação, quem o programava não eram os engenheiros que o projetaram, mas seis mulheres: Kay McNulty, Betty Jennings, Betty Snyder, Marlyn Wescoff, Fran Bilas e Ruth Lichterman.
Elas não tinham manuais. Não havia cursos. Programar o ENIAC significava descobrir, na prática, como fazer a máquina pensar. Era preciso configurar fisicamente cabos, chaves e painéis para cada novo cálculo. Um erro mínimo podia invalidar semanas de trabalho.
Apesar disso, por muito tempo essas mulheres foram invisíveis. Em fotos oficiais, apareciam como “operadoras”. Em eventos, seus nomes eram omitidos. Só décadas depois seu papel começou a ser reconhecido como aquilo que realmente foi: programação em estado puro.
Do esforço de guerra à corrida espacial: mulheres escreveram o código decisivo
Durante a Segunda Guerra Mundial, governos recrutaram mulheres em massa para cálculos balísticos e programação de máquinas militares. Ao final do conflito, muitas seguiram para centros de pesquisa, universidades e agências espaciais.
Na NASA, esse protagonismo se intensificou. As missões Apolo exigiam softwares extremamente confiáveis. Um erro de cálculo colocava vidas em risco e podia comprometer toda a missão.
Mulheres escreveram, testaram e validaram grande parte dos códigos que orientaram foguetes, módulos lunares e sistemas de navegação. Enquanto o público celebrava astronautas, essas programadoras garantiam que eles voltassem para casa.
Quando a programação virou poder, o campo mudou de mãos
Nos anos 1960 e 1970, a computação ganhou valor estratégico, econômico e político. Empresas e governos passaram a enxergar o software como ativo central. Nesse momento, a programação deixou de ser vista como tarefa secundária e passou a representar autoridade, controle e prestígio.
Essa mudança alterou o perfil do campo. Instituições masculinizaram a área, criaram estereótipos do “gênio solitário” e difundiram a ideia de talento inato. Esses discursos afastaram mulheres e reescreveram a história, como se elas nunca tivessem participado do início da computação.
Nada disso aconteceu por acaso biológico. A mudança foi cultural.
O apagamento não foi técnico, foi narrativo
Nada no ato de programar mudou de essência. Continuava sendo lógica, criatividade, resolução de problemas. O que mudou foi quem recebia o crédito.
Livros, filmes e discursos passaram a destacar apenas figuras masculinas. As mulheres que haviam construído os alicerces do campo foram tratadas como exceções, curiosidades ou notas de rodapé.
Esse apagamento criou a falsa impressão de que mulheres “entraram depois” na computação, quando, na verdade, estavam lá desde o começo.
O que essa história revela sobre tecnologia
A origem feminina da programação revela algo profundo: a tecnologia não é neutra. Ela reflete valores sociais, escolhas culturais e relações de poder. Quem é lembrado, quem é esquecido, quem ocupa os espaços de decisão — tudo isso molda o futuro técnico tanto quanto o código.
Também mostra que talento não surge de um estereótipo. Surge de oportunidade, reconhecimento e acesso. Quando as mulheres tiveram espaço, criaram. Quando foram excluídas, o campo perdeu diversidade de pensamento.
Afinal, por que isso importa hoje?
Porque a forma como contamos o passado influencia quem se sente autorizado a construir o futuro. Se a história da computação parece masculina, jovens meninas tendem a se afastar. Se ela é contada como realmente foi — diversa, colaborativa, feminina desde a origem — o campo se amplia novamente.
Reconhecer que a programação começou como trabalho feminino não é um gesto simbólico. É uma correção histórica. E também um lembrete: a inovação não pertence a um gênero, a um perfil ou a um mito. Ela nasce onde há pessoas dispostas a resolver problemas — mesmo quando ninguém acha que aquilo é importante.
Conclusão: o código sempre esteve nas mãos delas
Antes de a programação ser glamour, foi invisível. Antes de ser poder, foi trabalho silencioso. E nesse silêncio, as mulheres escreveram os primeiros códigos que mudaram o mundo.
Entender isso não diminui ninguém. Pelo contrário. Expande a história, devolve complexidade ao passado e nos lembra de algo essencial: toda tecnologia carrega as marcas de quem a construiu — mesmo quando tentaram apagar seus nomes.

Eduardo Barros é editor-chefe do Tecmaker, Pós-Graduado em Cultura Maker e Mestre em Tecnologias Educacionais. Com experiência de mais de 10 anos no setor, sua análise foca em desmistificar inovações e fornecer avaliações técnicas e projetos práticos com base na credibilidade acadêmica.










