Este artigo analisa como o apagão de internet na Rússia se tornou uma estratégia de controle digital com impacto econômico bilionário, revelando os custos reais de interromper o acesso à rede em escala nacional.
Em 2025, algo silencioso passou a acontecer com frequência incomum dentro da Rússia. Sites demoravam a carregar. Aplicativos funcionavam parcialmente. Conexões pareciam “respirar” em intervalos estranhos. Não era um colapso técnico. Era estratégia. O chamado “apagão controlado” se tornou uma das armas mais caras e sofisticadas do Estado russo — e seus efeitos agora podem ser medidos em bilhões.
Segundo um relatório internacional, o bloqueio e a degradação deliberada da internet russa custaram US$ 12 bilhões em apenas um ano. Mais do que qualquer outro país. Mais do que a soma de muitos conflitos digitais combinados. A pergunta que surge é simples e inquietante: por que um governo pagaria tão caro para limitar sua própria internet?
O que realmente aconteceu com a internet russa
Ao contrário de cortes totais de rede vistos em outros países, a Rússia adotou uma abordagem diferente. Em vez de desligar tudo, optou por interrupções seletivas, lentidão induzida e fragmentação do tráfego. A internet continuava “ligada”, mas deixava de funcionar plenamente.
Essa estratégia foi associada ao governo de Vladimir Putin, que há anos defende a ideia de uma “internet soberana”. Na prática, isso significa reduzir a dependência de infraestruturas globais e aumentar o controle estatal sobre dados, rotas e protocolos.
O resultado foi um ambiente digital instável, difícil de diagnosticar e ainda mais difícil de contornar.
A “Cortina de 16 KB”: o detalhe técnico que mudou tudo
Um dos pontos mais curiosos do relatório é a menção à chamada “Cortina de 16 KB”. O nome parece técnico demais, mas o conceito é simples: limitar ou fragmentar pacotes de dados em tamanhos tão pequenos que conexões modernas — especialmente criptografadas — passam a falhar ou a se degradar severamente.
Serviços que dependem de transferência contínua de dados, como redes sociais, plataformas de vídeo, VPNs e até sistemas corporativos, tornam-se erráticos. Nada é explicitamente bloqueado, mas quase tudo funciona mal.
Essa tática, segundo analistas, é especialmente eficaz porque:
- dificulta a comprovação de censura direta;
- confunde usuários comuns, que atribuem o problema à tecnologia;
- torna caras e complexas as soluções de contorno.
O custo invisível de controlar a rede
O levantamento foi divulgado pela Top10VPN, que monitora interrupções de internet em escala global. O dado mais chamativo é que a Rússia respondeu por mais da metade do impacto econômico mundial causado por bloqueios de rede em 2025.
Esse custo não aparece apenas em relatórios. Ele se manifesta em:
- perdas de produtividade;
- interrupções no comércio eletrônico;
- dificuldades logísticas;
- fuga de serviços digitais e startups;
- isolamento tecnológico gradual.
Em outras palavras, o “apagão” não afeta só ativistas ou jornalistas. Ele atinge toda a economia conectada.
Impacto econômico de interrupções da internet em 2025
Segundo o relatório global da Top10VPN sobre interrupções de internet em 2025, a Rússia concentrou mais da metade do impacto econômico mundial causado por bloqueios digitais, ultrapassando US$ 11 bilhões em perdas estimadas — um valor sem precedentes na série histórica.
| País | Impacto econômico estimado | Horas totais de interrupção | Usuários afetados |
|---|---|---|---|
| Rússia | US$ 11,9 bilhões | 37.166 horas | 146 milhões |
| Venezuela | US$ 1,91 bilhão | 5.952 horas | 17,9 milhões |
| Myanmar | US$ 1,89 bilhão | 9.888 horas | 23,6 milhões |
| Paquistão | US$ 1,13 bilhão | 11.482 horas | 110 milhões |
| Tanzânia | US$ 889,8 milhões | 6.966 horas | 20,6 milhões |
| Iraque | US$ 595,7 milhões | 7.685 horas | 39,6 milhões |
| Vietnã | US$ 282,1 milhões | 1.560 horas | 85,6 milhões |
| Irã | US$ 214,7 milhões | 170 horas | 71,9 milhões |
| Índia | US$ 179,8 milhões | 3.671 horas | 52,5 milhões |
| Turquia | US$ 129,7 milhões | 54 horas | 77,5 milhões |
Fonte: relatório global de interrupções de internet da Top10VPN (2025).
Observação editorial: os valores representam perdas econômicas estimadas associadas a bloqueios, lentidão deliberada e interrupções totais de acesso à internet.
Por que insistir em uma estratégia tão cara?
Do ponto de vista econômico, a decisão parece irracional. Mas, do ponto de vista político e estratégico, faz sentido. Em contextos de tensão interna e externa, o controle da informação se torna prioridade.
Ao enfraquecer a internet, o Estado:
- reduz a circulação rápida de narrativas alternativas;
- dificulta a coordenação de protestos;
- limita o acesso a plataformas estrangeiras;
- força usuários a permanecer em ecossistemas controlados.
É um modelo de poder que troca eficiência econômica por previsibilidade política.
Um novo tipo de apagão
O mais relevante dessa história talvez não seja o valor bilionário, mas o precedente. O caso russo mostra que o apagão moderno não precisa ser total nem visível. Ele pode ser fragmentado, técnico e ambíguo.
Em vez de “internet desligada”, temos:
- internet degradada;
- acesso parcial;
- funcionamento intermitente;
- frustração constante.
Esse modelo é mais difícil de denunciar, mais complexo de medir e, paradoxalmente, mais caro.
O que isso revela sobre o futuro da internet
O bloqueio de US$ 12 bilhões não é apenas uma estatística. Ele revela uma disputa em curso sobre o significado da internet no século XXI. De um lado, a rede como espaço global, aberto e interoperável. De outro, a internet como infraestrutura nacional controlada, sujeita a interesses de Estado.
A estratégia russa indica que o custo financeiro deixou de ser o principal freio para esse tipo de política. Quando o controle da informação é visto como essencial à estabilidade do poder, o preço passa a ser secundário.
Por que o bloqueio de internet de Putin custou tanto?
Porque não foi um erro nem um colapso técnico. Foi uma política deliberada, contínua e sofisticada, baseada em degradação seletiva da rede — cara de implementar, difícil de manter e ainda mais cara para a economia.
Quando o silêncio digital sai caro
O “apagão” russo de 2025 mostra que controlar a internet não é apenas uma decisão política — é uma escolha econômica de alto risco. Ao tentar moldar o fluxo de informação, o Estado acaba moldando também seu próprio futuro digital.
O dado mais revelador talvez não seja o valor de US$ 12 bilhões, mas o que ele simboliza: o preço real de transformar a conectividade em instrumento de poder.

Eduardo Barros é editor-chefe do Tecmaker, Pós-Graduado em Cultura Maker e Mestre em Tecnologias Educacionais. Com experiência de mais de 10 anos no setor, sua análise foca em desmistificar inovações e fornecer avaliações técnicas e projetos práticos com base na credibilidade acadêmica.










